Hiram Reis e Silva (*), Porto Alegre, RS, 01 de maio de 2015

Rondon: altura média, testa larga, fisionomia distinta, traços finos, olhos amendoados, queixo delgado. Herói que nasceu soldado e morrerá soldado. Mas herói “sui generis” que, para não matar, nem deixar que se matasse um só homem, preferiu arrostar cem vezes a morte... (Fuad Carim ‒ Embaixador da Turquia no Brasil)

Falar de Rondon é abusar dos adjetivos, é falar no superlativo. Encontramos, na obra de Esther de Viveiros, relatos pessoais, ditados na primeira pessoa, que não nos cabe, como pesquisador, nada acrescentar, nada a retocar, pois foi o próprio Rondon que ditou à jornalista e escritora, pouco antes de falecer, sua história que foi consolidada, mais tarde, no livro Rondon conta sua vida. Apresentamos ao leitor brasileiro a vivência contagiante de brasilidade de um ícone tão magnífico que a nação resolveu materializar sua grandeza batizando um estado brasileiro com seu nome ‒ Rondônia.

O Caboclo Mimoseano

Esse caboclo, peregrino por patriotismo, viajante por ideal, desbravador por destino, apaixonado por ofício, pioneiro por temperamento, incansável por dever, estóico por profissão, soldado da paz, a serviço das fronteiras que ajudou a demarcar e do Sertão, que ajudou a revelar, na mais nobre das conquistas e na mais santa das vitórias, Rondon é glória que reúne os mais altos méritos militares aos mais altos méritos civis. (Benjamim Costallat)

Família

Cândido Mariano da Silva Rondon nasceu em Mimoso, MT, em 5 de maio de 1865.

[...] minha ascendência materna indígena ‒ índios Terena e índios Bororo. Com os Guaná de quem descendia minha avó paterna, Maria Rosa Rondon, são três as tribos de que descendo. [...] Casaram-se meus Pais, Cândido Mariano da Silva e Claudina Lucas Evangelista, no Mimoso. Foram meus padrinhos Antônia Rosa da Silva e Quintiliano Pereira de Castro. Maria Antônia de Arruda, mulher do pescador Antônio Alves, foi “madrinha de carregar”, isto é, ter nos braços o neófito, até lhe ser ministrado o sacramento do batismo. (VIVEIROS)

A Terra Natal

Mimoso é Distrito do Município de Santo Antônio do Leverger, antigamente Santo Antônio do Rio Abaixo. [...] Era eu já um pequenino vaqueiro. Corria logo que alguém ia tratar do gado ou tirar leite. E não era só do leite que eu gostava. Quando, segundo a expressão popular, “o homem transformava o touro, que Deus fez, em boi”, corria para junto da fogueira onde se realizava a operação e onde se assava o que fora extraído, e que todos nós saboreávamos. Iniciei, bem pequeno, as caçadas, de que fui sempre apaixonado ‒ até que lhes compreendi a desumanidade. Minha arma era um bodoque com que atirava pelotas de barro. Vivia vida ao ar livre, vida sã e ativa, naquelas paragens pelos Bororos denominadas Aquiríio ‒ nome de um pequenino pássaro que vive e faz os ninhos no capim macio das campinas. Voa para o alto, verticalmente, como uma seta, a subir cada vez mais, embriagado de luz e de altura, até desaparecer no azul... para depois se deixar cair, com um longo assovio aquiríiiiiio...

Em mim se desenvolviam, assim, naturalmente, os germes de todos os elementos do sertanejo. Meu avô materno, já viúvo, e Dindinha Joaquina que me criavam, não se esqueciam, entretanto, de me instruir. Terminada a guerra do Paraguai, em fins de 1871, veio para o Mimoso um ex-Sargento dos “Voluntários da Pátria”. Propôs aos fazendeiros de maior destaque ‒ entre os quais Antônio Caetano, meu tio, e João Lucas Evangelista, meu avô ‒ ensinar a petizada, fundando uma escola de onde, ao terminar o ano, saía eu sabendo ler e escrever. Usava o ex-Sargento barba cerrada. Apesar do aspecto severo, só lhe chamávamos “o 79”, seu número no regimento. Seu nome era Jacinto Heliodoro de Almeida e nascera em Niterói. (VIVEIROS)

Cuiabá

Em colóquio íntimo, transmitira meu Pai a meu tio seus tristes pensamentos:

Mano Manoel Rodrigues, sinto-me muito doente. Penso no primeiro filho que vou ter. Posso morrer antes que ele nasça. Meu irmão, se isso acontecer, e se o filho esperado for um menino, não o deixe no Mimoso. Mande-o buscar, a fim de o salvar da triste ignorância em que jazem os filhos dos mimoseanos. Aqui em Mimoso, será ele um vaqueiro ignorante; na Cidade, poderá se preparar para servir melhor nossa Terra.

E realizaram-se aqueles tristes pressentimentos ‒ não pôde ele estreitar nos braços o filhinho. Veio a falecer em fins de dezembro de 1864, quando rebentou a guerra do Paraguai, e eu nasci a 5 de maio de 1865, no aceso da luta desumana. Dois anos e meio depois, falecia minha Mãe. Meu tio, Manoel Rodrigues da Silva, sem aquilatar o alcance do compromisso tomado, cumpriu-o religiosamente: mandou buscar-me quando atingi a idade de sete anos. E assim é que passei a segunda infância e o início da puberdade em Cuiabá, em companhia daquele tio, realizador dos sonhos de meu Pai. [...]

Era solitária e triste minha vida, em casa do tio viúvo ‒ perdera ele a esposa, dois anos depois de minha vinda para sua companhia. Só tinha relações com a família de Manoel Lino de Christo, casado com Nhá Vita, irmã de sua falecida esposa, com Nhá Juvência, outra irmã, casada com João Marques, o “palhaço”, como o chamavam, pelas suas pilhérias e com Nhá Balbina, outra parenta. Minha convivência era, pois, com filhos de trabalhadores que frequentavam a escola. E, desde logo, como sempre, no correr de minha carreira, puseram-me como Chefe, Chefe da meninada. Aliás, não tinha eu muito tempo para brincar. Quando não estava agarrado aos livros, ia ajudar o tio na venda de roça, onde de tudo se vendia, inclusive peixe frito que, com farinha, constituía a alimentação dos trabalhadores. [...]

Ao chegar eu a Cuiabá, em 1873, estavam fechadas as matrículas nas escolas públicas e, para não perder tempo, pôs-me meu tio na escola particular de Mestre Cruz. No ano seguinte, fui matriculado na escola pública do Professor João Batista de Albuquerque, uma vez que meu tio não tinha posses para pagar uma escola particular. [...] Passei, depois da escola de Mestre João, para a do Professor Francisco Ribeiro da Costa, Mestre Chico, na qual completei o curso primário, em 1878. [...] Matriculei-me em 1879 na Escola Normal ‒ que tomou no ano seguinte o nome de Liceu Cuiabano ‒ completando com distinção o curso normal, em princípio de novembro de 1881, isto é, com 16 anos. Tornei-me assim, uma vez diplomado, apto a exercer as funções de Professor primário, tendo sido nomeado.

Sem conhecer ainda os sonhos de meu Pai a meu respeito, inspirei-me nas resoluções de meus colegas do Liceu, que assentavam praça para estudar na Escola Militar. [...] Por isso, pouco antes de me formar, procurei meu tio, para uma conversa. O bom Manoel Rodrigues assustou-se, quando lhe disse:

‒ Meu tio, deixe-me estudar no Rio de Janeiro.

‒ Como te poderei eu sustentar lá! Procurei satisfazer teus desejos, nesse teu anseio de aprender, de progredir, mas mandar-te para o Rio, não é possível, não tenho recursos para isso!

‒ Não lhe estou a pedir recursos, meu tio, e sim o seu consentimento. Quanto aos meios para estudar no Rio, há muito venho preocupado com o problema, e já lhe encontrei a solução. [...]

Aflito, ao pensar nas dificuldades que teria eu de enfrentar, como soldado, foi procurar seu amigo, o Dr. Malhado, médico, Professor de pedagogia na Escola Normal, que me dera distinção. Expôs-lhe suas preocupações. Voltou Manoel Rodrigues satisfeitíssimo e apressou-se em me comunicar que decidira me adotar, para que, na qualidade de filho de Capitão da Guarda Nacional, me fosse possível iniciar a carreira como Cadete, e não como soldado. Dr. Malhado dar-me-ia carta de recomendação. Qual não foi, porém, sua surpresa quando, em vez da alegria entusiástica com que contava, teve a minha resposta:

‒ Fico-lhe muito agradecido pela sua ideia, mas não posso aceitar que me adote.

‒ Dizes-me isso a mim, que te criei, que fiz por ti tudo quanto em mim coube!

‒ Pai só posso ter um ‒ é o Senhor meu tio, um tio que muito prezo e a quem muito estimo. Nunca poderá, entretanto, ser meu Pai!

E fui assentar praça. Não aceitei também carta de recomendação.

‒ Se não puder me encaminhar sozinho, renunciarei a meus projetos e serei vaqueiro ‒ garanto-lhe que bom vaqueiro! Para não magoar Dr. Malhado, aceite a carta e dê-ma. Inutilizá-la-ei.

Tinha Manoel Rodrigues da Silva um homônimo cujas falcatruas andavam pelos jornais ‒ resolveu, por isso, acrescentar ao seu nome o apelido de sua Mãe: Rondon. E passou a assinar-se Manoel Rodrigues da Silva Rondon. Ao formar-me, adotei o nome de Rondon, em homenagem ao tio que quisera ser meu pai. Requeri, ao Ministro da Guerra, permissão para acrescentar Rondon ao meu nome e passei a assinar Cândido Mariano da Silva Rondon, depois de deferido meu requerimento. (VIVEIROS)

Fonte: VIVEIROS, Esther de. Rondon Conta sua Vida ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro ‒ Livraria São José, 1958.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);
Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);
Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

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