No final dos anos 30 apareceu, em Oriximiná, o cidadão norueguês Knudsen, que era naturalista, isto é, tinha formação acadêmica acerca da natureza: terra, vegetais e animais.

O então prefeito Helvécio Guerreiro teve a ideia de mantê-lo em Oriximiná; para isso abriu, com ele, um pequeno negócio de plantação de orquídeas para que ele tivesse do que viver. As catleias do Largo da Pólvora, em Belém, foram plantadas por Knudsen.  A contrapartida era que ele, Knudsen, ensinasse os rudimentos de agricultura aos jovens. Mas para que isso?

Helvécio deu-se conta de que Oriximiná dependia demasiadamente do extrativismo, sofrendo as flutuações do mercado comprador. Duas soluções se impunham: processar, localmente, a castanha produzida e organizar a agricultura municipal. Não conseguiu montar uma descascadeira de castanha, enquanto a escolinha do Knudsen foi fechada quando do término do seu mandato de prefeito.

A situação, hoje, não é qualitativamente diferente do que era então, mas, quantitativamente sim, por causa da bauxita. E quando a bauxita acabar?

Os emirados árabes estão usando os dólares do petróleo para criar uma infraestrutura de serviços e turismo, já que não podem pensar em agricultura, para terem do que viver na era pós-petróleo. Oriximiná precisa fazer algo semelhante, precisa de uma versão moderna do projeto do prefeito Helvécio Guerreiro, que envolva coisas como a recuperação dos castanhais, ou mesmo a plantação de novos.

Na realidade, precisa ser um projeto que envolva o município e a universidade. A universidade se incumbe de formar pesquisadores e professores, e realizar os projetos de pesquisa, enquanto o município se encarrega de dar suporte legal e financeiro aos projetos econômicos baseados nos resultados das pesquisas.

Uma escola de nível médio, com o objetivo de formar mão de obra local para o trabalho nas plantações, é uma necessidade básica; ela poderia ser implantada dentro da Escola Helvécio Guerreiro. A mão de obra natural de cada região é uma necessidade real, pois é mais fácil formar pessoas locais para a tarefa no campo, do que adaptar pessoas de fora às condições de cada região. Um exemplo disso foi dado pela nossa família, que foi expelida do Trombetas pela malária. Como nossas atividades econômicas eram todas baseadas no Trombetas e no Erepecurú, e nada na sede do município, tivemos que emigrar para Belém e enfrentar a sobrevivência a partir de profissões técnicas.

Espero que as pessoas conscientes entendam essa situação e elaborem um projeto moderno e viável, para que as gerações futuras, que não terão a bauxita, possam plantar, processar e comercializar produtos como castanha, dendê, mandioca e outros, produzidos na terra firme e na várzea; culturas permanentes e sazonais, que se complementem.

Saí de Oriximiná em janeiro de 1959, aos dezesseis anos de idade. Sou físico e professor universitário aposentado; tenho o tempo necessário para rever o passado e pensar em soluções para o futuro. A sugestão aqui expressa é a contribuição do cidadão que aqui não pôde ficar, mas ama sua terra com a mesma paixão de sempre.

Sergio Guerreiro

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