O Círio Fluvial de Santo Antônio acontece neste domingo, 07, abrindo ao melhor estilo as festividades em homenagem ao padroeiro do município. Enquanto a Paróquia providencia os últimos ajustes, o comércio local vivencia o aumento nas vendas e a prospecção de uma renda extra. Por outro lado, famílias inteiras aguardam a chegada de um familiar querido que só vem à cidade para matar a saudade dessa tradição especial. É tempo de ver rostos novos com os turistas que por aqui aventuram a expectativa de ver algo diferente e espetacular.

“Estamos com uma expectativa muito grande porque são 70 anos de círio fluvial, um momento muito importante não só para a igreja católica, mas para toda população oriximinaense que espera com muita alegria esse evento, um dois mais bonitos do mundo”, comenta o padre Arilson Lima, Pároco da Paróquia de Santo Antônio.

A balsa que conduzirá a imagem de Santo Antônio da Comunidade Rural Nossa Senhora do Rosário, Lago Caipurú, até o porto da cidade, já está em fase de conclusão do projeto de ornamentação. Ela é a principal personagem do Círio e atrai todos os olhares com seu espetáculo de luz e cor. Para completar a beleza desse momento mágico, neste ano foram confeccionadas mais de 16 mil barquinhas, peças de anhinga que servem de base para balões de seda com velas que são soltas no Rio Trombetas dando a impressão que uma cidade flutuante se aproxima. As embarcações também contribuem para beleza do Círio e dão um show à parte.

“Temos uma parceria muito grande com as escolas que confeccionaram em torno de 9 mil barquinhas, mas os devotos e as comunidades também deram sua contribuição e, com isso, temos mais de 16 mil barquinhas. Agora contamos com os donos de embarcação para que possam nos ajudar a soltá-las no rio”, informa o pároco.

O evento, além de envolver os oriximinaenses pela fé, aquece a economia. É a época em que o comércio, principalmente de vestuário e acessórios, potencializa suas vendas. Destaque também para o ramo de gêneros alimentícios, pois muitas famílias preparam um almoço tradicional para reunir entes queridos, assim como desponta a venda de refeições e petiscos em vários pontos da cidade.

A festividade em homenagem ao Santo Casamenteiro, acontece tradicionalmente do primeiro ao terceiro domingo do mês de agosto. Neste ano traz como tema: “Santo Antônio: testemunho do cuidado e da misericórdia”. São 15 dias de festa e devoção com missas todas as noites na Igreja Matriz seguida de atrações como leilões, bingos, apresentações culturais, serestas e outros no Clíper. A Prefeitura de Oriximiná é a principal parceira do evento.

“Temos uma grande parceria com a prefeitura, com o empresariado local e com os devotos. É a festa do povo oriximinaense, venha participar e fazer uma festa da paz, da alegria e da confraternização”, completa padre Arilson.

Texto: Leize Silva. Fonte: http://orixinoticia.blogspot.com.br/


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Aspectos históricos do Círio Fluvial de Santo Antônio

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Primeiro Círio Fluvial de Santo Antônio, 04 de agosto de 1946.

Oriximiná comemora no mês de Agosto, há mais de meio século, sua festa maior: as festividades de Santo Antônio. Esta extraordinária manifestação da religiosidade popular é sempre um ato de fé, esperança, fraternidade e confiança em Deus.

A religiosidade e a devoção pelo padroeiro Santo Antônio acompanham a história deste município. Em verdade, as festividades de Santo Antônio começaram a ser preparadas com pequenas procissões terrestres que aconteciam do dia 1º até o dia 15 de agosto, anualmente. Nesse período, diariamente, a imagem do Santo saía da casa de uma família da comunidade até a Igreja Matriz, onde se realizava trezenas e ladainhas em louvor a ele.

Somente a partir de 1946, o Círio deixou de ser terrestre e passou a ser fluvial. Essa mudança aconteceu através de um acordo entre a Diretoria da Festa e a Cúria Prelatícia de Santarém que também alterou a data da festividade, passando esta acontecer do 1º ao 3º domingo de agosto e a obedecendo a uma programação especial.

Assim, às 19:00 horas do dia 03 de agosto de 1946, foi realizada a 1ª trasladação da imagem de Santo Antônio que partiu da Igreja Matriz para a casa da Senhora Raimunda Barros (Mundica Barros), no Lago do Iripixi (hoje a Serraria Santa Terezinha), onde funcionava uma escola. A trasladação seguiu o seguinte percurso: Praça São Sebastião (atual praça de Santo Antônio), Rua Barão do Rio Branco, Travessa Carlos Maria Teixeira até ao porto da cidade. A romaria foi acompanhada por muitos devotos que, munidos de tochas que iluminavam o trajeto, dali seguiram em canoas até o local determinado.

É de se observar que o dia 04 de agosto de 1946 ficou marcado na história religiosa do povo oriximinaense, pois aconteceu o primeiro Círio Fluvial Noturno em homenagem ao padroeiro. A imagem do Santo foi conduzida em uma canoa de 30 palmos que pertencia ao Senhor José Vicente Calderaro (Carapina), e guiada por oito bons remadores. A procissão foi acompanhada pelo barco a motor Urucari (único barco a motor que existia na cidade (pertencia ao antigo SESP - Secretaria Especial de Saúde Pública), algumas lanchas a vapor e canoas de vários tamanhos, todos enfeitados com bandeirinhas e tochas para iluminar o percurso. Nos primeiros Círios era comum a presença de canoas enfeitadas com fitas e bandeirinhas de papel de seda coloridos.

Ao chegar ao porto da cidade, o Círio obedeceu ao seguinte itinerário: Rua 15 de novembro (atual Magalhães Barata), Rua Barão do Rio Branco, Praça São Sebastião (hoje praça de Santo Antônio) até a Igreja Matriz. Já na Igreja Matriz, realizou-se a parte religiosa com a benção do Santíssimo Sacramento e do novo Estandarte de Santo Antônio, que teve como paraninfos os membros da Diretoria da Festa. Foram patrocinadores as pessoas que compunham a Irmandade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Igreja Matriz de Oriximiná em fotografia da década de 1930, feita pelo fotógrafo santareno Apolônio Fona. Blog do Padre Sidney Cantos

Depois da celebração religiosa, também aconteceu o 1º leilão, realizado no barracão da festa e patrocinado pelos marianos e construtores navais do município. Durante a festividade aconteciam apresentações artístico-culturais, que eram orientadas pela Diretoria da Arquiconfraria, no palco de Santo Antônio. A animação na praça era de responsabilidade do Senhor Pedro Martins, este fazia apresentação de Jazz no Coreto da Praça, além de possuir um variado repertório de músicas populares que animavam o ambiente festivo.

Cumpre destacar que, atualmente, a romaria é acompanhada por barcos iluminados que oferecem um espetáculo de luzes, cores e magia sobre as águas escuras do caudaloso Trombetas. Destacam-se como uma das maravilhas do Círio de Santo Antônio as barquinhas coloridas e iluminadas, hoje fabricadas em Aninga e papel de seda multicor, confeccionadas pela comunidade escolar e pelos romeiros. Elas iluminam a extensão do rio durante cortejo. São milhares de pontos de luz que espelham as águas, como as estrelas reluzem nos céus. Importante lembrar que no início as barquinhas eram cuias com velas que marcavam o caminho e levavam os pedidos de bênçãos, escritos pelos fiéis, em pequenos papéis. Acredita-se que o grande caminho de luz foi idealizado pelo Senhor Manoel Afonso da Silva (Duca Silva), e os balões confeccionados pela Senhora Alzemira Ribeiro.

Contam os historiadores que a ideia surgiu após a queda acidental de um balão nas águas do Trombetas que, por possuir o fundo de papelão grosso, ficou a flutuar iluminando o rio. Nos anos posteriores, com o restante de madeira que sobrava do forro do Salão Paroquial, foram confeccionadas 500 barquinhas. Cada barquinha levava uma vela acesa dentro de um balão de papel de seda colorido, e eram espelhadas no início da procissão fluvial. O efeito visual iguala-se a uma cidade flutuante aproximando-se do porto da cidade.

O cortejo do Círio de Santo Antônio é orientado por uma balsa que conduz a berlinda com a imagem de Santo Antônio, especialmente ornamentada para a ocasião. Esta é acompanhada por outras embarcações decoradas com bandeirolas coloridas e muitos efeitos luminosos. Com a chegada dos barcos ao cais, o Santo é saudado com as buzinas dos barcos que não acompanharam a procissão, um espetacular show pirotécnico e uma multidão de fiéis que esperam a imagem do Padroeiro com muitos aplausos, cantos religiosos e bandeirolas. Nesse momento a emoção toma conta dos fiéis que agradecem as graças recebidas e encomendam novas promessas.A partir desse momento inicia-se a procissão terrestre que vai até a Igreja Matriz, onde é celebrada a Santa Missa pelo Bispo ou pelo Sacerdote da Prelazia.

Em resumo, o Círio de Santo Antônio inscreve-se como uma das maiores manifestações de fé do povo católico do Oeste do Pará, fato que tem chamado atenção de muitos fiéis e pesquisadores de outras regiões do país. E Oriximiná, por meio desta manifestação religiosa, destaca-se como um município que possui um povo cuja expressão cultural destaca-se pela singularidade.

Pesquisa: Etelvina Queiroz e Maria Salete Soares, com adaptação de João Felipe Lobato. Fonte: Página da Paróquia de Santo Antônio, Oriximiná (http://www.oriximina.org)

 

Memórias do Círio Fluvial de Santo Antônio

Praça da Matriz, vendo-se a barraca, o coreto e o passeio da praça, com seus singelos bancos. Blog Padre Sidney Canto

Paraguassú Eleres

É impressionante a alegria participante que nos empolga desde os primeiros momentos do círio de Santo Antônio, em Oriximiná. A festa que se comemora do padroeiro, um dos grandes pensadores e intelectuais da ordem franciscana, se reveste em um entusiasmo e congregação por parte do povo que parece, assim, também a natureza na tarde dourada se reveste de uma alegria divina. Somos tomados da festa. Somos todos na festa. Somos todos  a própria festa. Ela se entranha nos nossos corações como se voltássemos a uma infância restada em nossos seres. Somos objeto de uma lembrança de tempos que já lá se vão das nossas vidas. Velhas lembranças se renovam. Somos todos remoçados de outros círios e outras procissões fluviais em outras quaisquer parte onde já estivemos principalmente nos recantos mais longínquos da Amazônia onde quer que habite uma família cristã.

À saída do lago Sacurí, já a tarde morria num azul cinza rosado de dourados em fogo como todas as belas tardes que a nossa hidrografia permite compor e, também, a essa hora, já a lua, no seu portentoso disco radiante, se reflita nas águas cálidas do lago. Então é dado o inicio. Os foguetes rufam uma saudação ao santo padroeiro. As emoções se contêm no arrojo da regata que principia. No toldo do motor Brotinho, sob o iluminado cruzeiro repousa a imagem do padroeiro no nicho magnanimamente ornado. Principia realmente, a procissão quando todas as embarcações estão dispostas ao largo do Paraná do Sacurí. O alinhamento se forma. São três filas a conduzir. Ao centro, a embarcação do santo, escoltada por outras duas que são: á esquerda, o motor Confiança que trás a placente e bela figura, alvas como garças, das jovens da Congregação das Filhas de Maria. Encabeçando, a direta, o terceiro rosário de naus a lancha Remo desfralda no seu trinado saudoso o anunciar do cortejo. Seus apitos fazem coro aos do Confiança bem como aos hinos sagrados entoados pelas vozes femininas enquanto que o espocar dos foguetes riscam o céu semeando estrelas na festa que nos transfoge das nossas meditações para regiões de emoções incontidas. E, nos momentos de silêncio, onde só o roncar das máquinas se faz ouvir, os movimentos mecânicos parecem que conduzidos por um dedo divino que norteia as nossas atitudes.

Já se vão momentos que a noite é caída. O céu claro ostenta a lua como um dístico nesta procissão, e a noite canta conosco mo seu silêncio de musa. Agora as primeiras luzes da cidade aparecem como um brilhante rosário horizontal que nos induz a sonhar nos reflexos que ela acentua a cada minuto que passa e faz parecer mais e mais o rosto da cidade. Sua topografia acentuada moldura o brilho das luzes que se aproximam e completa o espetáculo da serpente multicor, caleidoscópica, formada pelas barquinhas iluminadas.

No meio de tudo a figura imponente do  comandante do desfile,  capitão  Manoel  Guerreiro, sobressai na  iluminação indireta  de sua camisa branca desfraldada ao vento. Sua figura humana forma par  no pictórico do espetáculo.  O fim do cortejo fluvial se aproxima. A entrada da cidade, somos levados a ilusão de estarmos deslizando sobre a superfície de um céu de água, onde centenas de estrelas coloridas rodopiam ao sabor das ondas do imponente Trombetas : são os barquinhos iluminadas por velas. Somos todos  o coração que palpita de uma multidão, acomunados  no sentimento cristão de homenagem ao Santo Padroeiro do Oriximiná. Somos levados a aceitar o que é capaz de perceber e sentir.

No trapiche e ao longo no litoral da cidade, o povo se apinha cantando homenagens ao Santo  no intercalar do ribombar dos fogos de artifício. Em breve a procissão seguirá pelas ruas.

Este é apenas mais um Círio. Outros se seguirão.  Mudarão  talvez  as  embarcações, o desfile, os fogos. Mas não mudará nunca a emoção das nossas alegrias; não mudará nunca o nosso amor por essa alegria. Seremos então velhos dos círios que vimos quando criança fomos. Oriximiná, agosto de 1963

PS.:  Morei em Oriximiná de janeiro/1963 a outubro/1970, e há cincoenta anos, quando assisti pela primeira vez a procissão fluvial do Círio, redigi a alocução, cujo original, amarelado pelo tempo, guar-do-o.  Dia 25 passado fiz a leitura dessa lembrança na missa que a comunidade de Oriximiná moradora de Belém homenageou seu padroeiro na capela de Santo Antonio  de  Lisboa,  e agora lhes encaminho. Belém, 28 de junho de 2013

Paraguassú Éleres – Agrimensor, Advogado

 

João Augusto de Oliveira

Oriximiná, nossa querida terra, no primeiro domingo de agosto de cada ano, assiste talvez um dos eventos mais expressivos de fé católica, com a realização do Círio fluvial em homenagem a Santo Antônio padroeiro do município e do seu povo.

Neste ano de 1996, realizado foi o 50º Círio, ou seja, completou Bodas de Ouro, um magnifico acontecimento. Milhares de fiéis se deslocam até a cidade de Oriximiná, a “Princesa do Trombetas”, para cultuar, reverenciar Santo Antônio e assistir a festa do Círio que é extraordinária!

Sábado, véspera do Círio, os fiéis promovem a transladação da imagem até a Capela do Aimim, no Rio Nhamundá, a pouca distancia da Cidade. De lá, no domingo, a partir das 18:00 hs, sai a procissão fluvial, com dezenas de embarcações caprichosamente ornamentadas, que encantam até aos mais exigentes críticos.

Dando partida, a procissão traz a sua frente a mais bela e mais bem ornamentada embarcação, conduzindo a imagem de Santo Antônio. É alguma coisa de espetacular. No crepúsculo do dia, a multidão que se aglomera na orla da cidade, começa a divisar as luzes das embarcações que saindo do rio Nhamundá, bem em frente da cidade, começam a navegar já em águas do Rio Trombetas, ocasião em que são soltadas as “barquinhas” velas  sob pedaços de madeiras com cercaduras de papel colorido, formando assim, para quem está a frente a cidade, a visão de uma toda iluminada, a margem oposta do rio Trombetas. É belo! Magnífico!É um espetáculo tocante.

Toda esta beleza, graças a ornamentação caprichosa recebida pelas embarcações feita com muito esmero, criatividade e dedicação, parte de um grupo de oriximinaenses, com grandes pendores para as artes, que com muitas abnegação, fé e amor à terra, se doam integralmente para este grande acontecimento, que se destina a homenagear o glorioso Santo Antônio.

Tomando o Rio Trombetas de embarcações ornamentadas e de milhares de “barquinhas” iluminadas, ao sabor da correnteza das plácidas águas do rio, formando está, todo o imaginário e todo o tributo de um povo, ao seu padroeiro, que é venerado desde a fundação da cidade.

Padre José Nicolino de Souza, filho do Município de Faro, quando subiu o Rio Trombetas fundou com o nome Santo Antônio do Uruá Tapera, dia 13 de junho de 1877, um povoado, depois elevado à vila e posteriormente a Município, com o nome de Oriximiná. Santo Antônio assim. é nosso padroeiro e protetor desde o nosso surgimento.

Sob cânticos, orações, sons de bandas musicais e vivas Santo Antônio, o povo se comprime na Rua 24 de Dezembro, frente para o Rio Trombetas homenageando a Santo Antônio, que também em Oriximiná é de grande popularidade.

Os fiéis nas embarcações e os que estão em terra, se confundem não só no sentido de religiosidade e fé cristã, mas também estupefata fica com tanta beleza.
Agora, entram também os fogos de tiros e cores, soltados das embarcações e da cidade, enquanto a procissão fluvial faz evoluções para a atracação. É lindo! É magnífico! É grande e maravilhoso.

Enquanto isso a “cidade iluminada” representada pelas “barquinhas”, soltas ao longo do Rio Trombetas, vagarosamente, descem o rio com a pouca correnteza, graças ao vento “terral” desta época do ano.

Atracadas as embarcações, misturam-se os fiéis que desembarcam e os que estão ávidos em terra esperando e é formada a procissão, que com grande multidão, percorre ruas, levando Santo Antônio, o milagreiro, casamenteiro, achador de coisas perdidas, etc... como queiram, mas o amigo inseparável de Jesus que vai até a Praça Santo Antônio, onde está a Igreja Matriz, para a missa campal celebrada pelos nossos dedicados padres, que em palavras sempre oportunas e fluentes, transmitem ao povo a palavra de Deus, as Boas Novas do Evangelho.

Durante 15 dias, os festejos em homenagem a Santo Antônio continuam. Mas a marca maior mesmo, é a deixada pelo Círio. Somos daqueles que teve a ventura de assistir a quase todos nestes últimos 50 anos, inclusive o de 1964, quando inaugurei a Praça Santo Antônio cujo a festa presidi. E a cada ano o Círio é mais bonito, deslumbrante que o do ano anterior.

Que Santo Antônio continue a proteger Oriximiná e seu povo, abençoando e afastando da querida terra todos os males. Viva Oriximiná! Viva Santo Antônio! Viva o Povo de Deus!

João Augusto de Oliveira - Ex-prefeito de Oriximiná, ex-deputado estadual e federal, advogado e membro da Academia Paraense de Letras.

Artigo publicado na edição de 18 de agosto de 1996 do Jornal Voz de Nazaré.

 

João Bosco Almeida

Não tem mais as barquinhas de madeira. Não tem mais a “equipe do Santo Antonio”, a turma do “Tonico”; não tem mais as inovações criativas para surpreender os milhares de espectadores no cais, ruas e ladeiras da cidade. Passividade e êxtase alternam as expressões dos nativos e visitantes; é nessa perspectiva que ocorre a grande diferença percebida entre um círio religioso como o da “Nazinha” em Belém e nosso círio de Santo Antonio, em Oriximiná.

Aninga, funcionários da prefeitura, adereços “de boi”, e trio elétrico, substituíram a simbólica produção de décadas passadas. É assim que se organizam as atividades do círio fluvial noturno do Santo Antonio no rio trombetas. Há uma forte presença da influência amazonense na decoração das embarcações, movimentos luminosos, na batida das músicas, tudo remanescendo a “festa de boi”.
Aliás, falta mesmo religiosidade no nosso círio de Santo Antonio. Faltam fervor, fidúcia antoniana, concentração aos ritos de uma manifestação de confiança no padroeiro da cidade. Faltam encadeamentos das rezas e expressão de espanto pelos fogos coloridos na noite do rio Trombetas que ofuscam a expressão de fé, explorando aplausos, mirando prêmios...

Não se vê lideranças religiosas inspirando o povo que assiste a um traslado fluvial noturno, sem convicção religiosa. Ouvi até menções no meio do povo que há ameaça de autoridades visando não mais pagar para fazerem o círio. Aqui a diferença: pagam o círio com dinheiro público; círio se faz com fé e doação, se constrói e se reconstrói a cada ano pelo imaginário repetido no interior de cada oriximinaense.
A pecúnia afasta a devoção, que nasce na oralidade familiar; a plástica ciriense é estranha as tradições locais. Os desenhos são concebidos fora do âmbito religioso, que é chamado apenas para aprovar ou não o desenho de santo. As vestes religiosas são substituídas a gosto da decoração para não atrapalhar o espetáculo de cores; o símbolo cristão veste fralda nos braços do santo português. O dia do círio chega junto com o cardápio religioso. Não há mobilização do povo para integração nas atividades sacras.

Não se percebe a devoção, o momento da parada cingida para o santo; não se sente a ligação, a sintonia entre o devoto e devotado; dispersos na fé, sem elo oratório, não há círio, corrente de fervor religioso conduzindo seu padroeiro. Ao contrário, há concorrência, porfia, trio elétrico “puxando” uma batida de boi; há uma disputa para premiar a mais bonita embarcação no desfile fluvial: primeiro a “balsa do Santo”, seja ela mesma uma balsa ou ferry-boat, ou os barcos do passado. Depois, na fila, a maior delas jorra cascata luminosa cegando os já cegos e passivos espectadores no cais, soltam-se fogos de todo tipo imitando o quatro de julho americano; corujas, pássaros noturnos se atordoam e saem em revoadas malucas como são as fagulhas levadas pelo vento. Em seguida, as menores embarcações, mas todas elas fazendo uma “paradinha”, como os batedores de pênaltis...focados por uma canhão de luz, revelando um desenho aleatório de fumaças provocados pelos estouros luminosos. O céu fica encantado, sem fé!

Assim roubam a cena, estas embarcações por serem mais iluminadas que a “balsa do Santo” buscam a glória, um desfile apoteótico, sem referencia sequer ao rito religioso, não inspirando no espectador aturdido nenhuma oração... afinal, estamos num círio, que por definição devia ser uma procissão religiosa.

Realmente, depois de seis anos eu vi um círio diferente, tanto daqueles saudosos círios das décadas de 70 e 80, como dos que participo caminhando pelas ruas da cidade das mangueiras.

João Bosco Almeida - Oriximinaense, advogado... e escritor nas horas vagas.
http://kondurilandia.blogspot.com/2011/08/um-cirio-diferente.html

Assista vídeo:

https://youtu.be/p5WNNyzhnU4

https://youtu.be/WdjNPfjh1JM