Artigo jornalístico "Asfaltando a Amazônia" abordando o asfaltamento da BR-163 e extensão da rodovia sobre a Calha Norte do Pará, publicado em https://piaui.folha.uol.com.br/asfaltando-a-amazonia/#, por Fernanda Wenzel, 14fev2020

Intervenção de Paula Cardoso sobre foto de Fred Rahal Mauro

O agricultor Deuzimar Fernandes da Costa chega em casa suado, com o facão na mão. Na roça de mandioca nos fundos da moradia, o ar quente da Amazônia se mistura com a poeira vermelha da estrada de terra que passa no município de Oriximiná. Os automóveis trafegam com cuidado para desviar dos buracos. “A vida aqui é do pesado para casa, de casa para o pesado”, explicou. Mas uma promessa vinda do outro lado do Rio Amazonas faz Costa sonhar: a chegada da BR-163, asfaltada. “Com a BR ia vir energia elétrica, indústria, daí esse serviço pesado parava.” O motorista que sai da casa de Costa rumo ao Norte não consegue ir muito adiante. Logo se depara com um maciço de floresta, que se estende a perder de vista. Dali para dentro, a promessa da BR vira pesadelo. “A gente vai correr o risco de invadirem nosso território, nossa floresta”, afirmou Gervásio dos Santos Oliveira, coordenador da Associação da Comunidade de Remanescentes de Quilombos do Ariramba (Acorqa), enquanto limpava o peixe fresco, recém-pescado no Rio Cuminá.

Do outro lado do Rio Amazonas, o presidente Jair Bolsonaro se prepara para inaugurar nesta sexta-feira (14) o asfaltamento de mais 51 km da BR-163. Pela primeira vez desde que foi inaugurada pelo general Ernesto Geisel, em 1976, o trecho que liga Cuiabá, no Mato Grosso, até o porto de Miritituba, no Pará, está totalmente pavimentado. “Em respeito ao compromisso que assumimos com caminhoneiros, produtores e cidadãos que aguardam há 45 anos por este dia, comunicamos a conclusão da pavimentação da BR-163 até Miritituba/PA”, comemorou o presidente no Twitter nesta terça-feira. Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), faltam mais 57 km do trecho entre Miritituba e Santarém para que toda a BR-163 no Pará esteja pavimentada.

Outro projeto gestado pelo governo militar que o governo Bolsonaro fala em concluir é a extensão da BR-163 sobre a Calha Norte do Pará – maior bloco de florestas protegidas do mundo, que se estende desde o Rio Amazonas até a fronteira com o Suriname. A ideia é construir uma ponte sobre o Rio Amazonas e, cortando a roça do agricultor Costa e a terra quilombola Ariramba, estender a rodovia por cerca de 1 mil km sobre a Calha Norte até o Suriname. O projeto Barão do Rio Branco, homenagem ao diplomata que negociou as fronteiras brasileiras no século XIX, inclui ainda a construção de uma hidrelétrica no Rio Trombetas. O plano foi anunciado em janeiro de 2019 pelo general Maynard Marques de Santa Rosa, então secretário especial de Assuntos Estratégicos, em entrevista para a Voz do Brasil. “Vamos estender a BR-163 de Santarém até a fronteira com o Suriname. Além das demandas naturais do escoamento da soja do Centro-Oeste, existem outros benefícios que vão advir da implementação dessa rodovia, integrando uma área até então desértica”, disse o general.

Em abril do mesmo ano, linhas gerais do projeto foram apresentadas a políticos, empresários e ruralistas na sede da Federação da Agricultura do Pará, em Belém. Em julho, a Secretaria-Geral da Presidência da República, responsável pela proposta, informava que o desenvolvimento do projeto dependia da publicação de um decreto criando um Grupo de Trabalho Interministerial (GTI). Até hoje o decreto não foi publicado. Procurado novamente nesta semana, o órgão não respondeu às questões enviadas pela reportagem.

A Calha Norte é uma área de 28 milhões de hectares de floresta praticamente intocada, do tamanho do Reino Unido, que tem 80% do território protegido por Unidades de Conservação (UCs), terras indígenas e quilombolas. Integra o chamado Escudo das Guianas, e 40% das espécies de animais e plantas que vivem no escudo não existem em nenhum outro lugar do mundo. O traçado da extensão da BR-163 não está oficialmente definido. Mas, segundo informações do site do Dnit, o traçado previsto para a extensão da rodovia cortaria quatro Unidades de Conservação, seis terras quilombolas e duas terras indígenas.

Gervásio Oliveira e sua família da Terra Quilombola Oriximiná, às margens do Rio Amazonas – Fotos de Fred Rahal Mauro

A pesquisadora do Imazon Jakeline Pereira alerta que os impactos a BR-163 na margem Norte do Rio Amazonas vão muito além das 15 mil pessoas que vivem nestas comunidades tradicionais. Na área se formam os rios voadores, corredores de água que evaporam na Amazônia e se transformam em chuvas no Sul do Brasil. Apenas uma das quatro Unidades de Conservação que podem vir a ser cortadas pela estrada – a Floresta Estadual do Trombetas – armazena, de acordo com seu plano de manejo, 2,3 bilhões de toneladas de carbono, mais CO² que o Brasil inteiro emitiu em 2018, segundo o Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg).

A chegada da BR-163 ao Pará, em 1976, está na origem de um processo de ocupação desordenada da região. No artigo Terra de Ninguém, publicado em 1977 no livro Amazônia, o Anteato da Destruição, o jornalista Lúcio Flávio Pinto relatou surtos de malária, falsificações de títulos de terra e a derrubada da floresta para criação de gado. Décadas depois, nos três municípios cortados pela rodovia – Novo Progresso, Altamira e Trairão – perdeu-se uma área de floresta equivalente a dez cidades do Rio de Janeiro entre 2000 e 2018, segundo dados do Prodes, programa de monitoramento do desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Nem mesmo as Unidades de Conservação criadas ao longo da rodovia ficaram imunes ao avanço da pecuária, da soja e do garimpo. Um exemplo é a maior floresta nacional do Brasil, a Flona do Jamanxim, que é a UC federal mais desmatada do país. A área derrubada equivale a 180 mil campos de futebol, também de acordo com o Prodes. Já a cidade de Novo Progresso ganharia as manchetes dos jornais de todo mundo em 2019. Ali foi planejado o “Dia do Fogo”, quando fazendeiros, madeireiros e empresários combinaram de incendiar a floresta.

Fonte: https://piaui.folha.uol.com.br/asfaltando-a-amazonia/#, FERNANDA WENZEL, 14fev2020