Mês de novembro de 1935
Ao tempo, o Tabuleiro das Tartarugas obedecia a administração da Prefeitura Municipal de Oriximiná que designava um fiscal para tomar conta da praia, zelar pela desova das tartarugas e fazer o possível para salvar a maior quantidade de filhotes, colocando-os em sacas e conduzindo os para os lagos centrais - Abuí-grande, Leonardo, Jacaré e outros mais.

Muitos desses fiscais faziam ao contrario das ordens recebidas. Vendiam as adultas e comiam os filhotes, havendo ate alguns deles que alimentavam porcos com as tartaruguinhas cozinhadas. Isso, na década de 40.
As viagens a essas regiões eram mon6tonas, feitas em canoas a remo e vela e se demorava mais de três dias para chegar-se a esses lugares. Devíamos ir verificar um castanhal no Abuí-grande para calcularmos a safra e, para isso, preparamos as canoas necessárias: uma grande com tolda e duas pequenas que serviam para os pescadores que seguiam na viagem.
No Abuí, como ate hoje, e grande a fartura de todas as espécies de peixes - tucunarés, tambaquis, peixes-boi, pirarucu e outros que serviam para fazer a salga, a fim de livrar as despesas da viagem. Também havia muitos quelônios - tartarugas, tracajás, pitius e, principalmente, tartarugas pequenas, próprias para os "mauaçus" nas praias de Oriximiná, pois naquela época a proibição não atingia a exigência de atualmente. Hoje, os Oriximináenses só podem saborear o "sarapatel" (prato tipico da região feito com tartaruga) se contrabandearem ou se forem para outra cidade da região, onde e bastante facil adquirir-se tartarugas e outros quelônios.
Descemos do Abuí e paramos na "Prefeitura", como era conhecido o barracão de morada do Fiscal, que na ocasião era o Machado, nosso amigo, que nos recebeu muito bem e tudo fez para passarmos uns dias em sua companhia. Não prometemos, mas ficamos para passar a noite e ver se virávamos alguma tartaruga, caso "saltassem" nessa noite, pois os pretos que faziam a guarda da praia haviam visto "sinal" de que um grande cardume estava preparando-se para subir.
Às dez horas da noite atravessamos o Trombetas e fomos ate a praia do Tabuleiro. Quando desembarcamos, o Fiscal nos disse que se quiséssemos, podíamos "virar"algumas tartarugas, que ele tinha ordem para isso.
Mas o nosso interesse não eram as tartarugas e sim ver a sua saída do rio e a sua desova, que obedece a um ritual. Primeiro vem o Capitari e, com a cauda, demarca o terreno onde as tartarugas terão de desovar. Terminada a demarcação, o Capitari cai na água e as tartarugas sobem para a praia cavando buracos para a desova, fazendo uma nuvem de areia que não se vê mais nada. E interessante, e contando não se acredita, elas não se afastam do terreno demarcado.
Terminada a desova, as tartarugas correm para a água sem pedir licença a ninguém e se a pessoa descuidar-se pode ate cair, quebrar uma perna, tal a fúria com que correm as "bichas". Visto o que queríamos, já nos preparávamos para voltar a Prefeitura quando fomos chamados pelo Fiscal que nos ofertou duas tartarugas, uma para o chefe da viagem e outra para os remeiros.
No caminho da praia para o Barracão o Fiscal lembrou que havia ali um preto-velho que sabia a história do tabuleiro e nos podia contar, o que achamos muito bom para registrar. Todos já agasalhados nas suas redes, o Fiscal pediu ao velho que contasse o que sabia sobre o Tabuleiro.
"Tio dos Santos", como o chamavam, depois de fazer a"brejeira" no "Tauari" e dada a primeira tragada, pigarreou e começou assim: "Ah! meu branco, o Tabuleiro não era aqui e sim na praia do Abuí. O Fiscal, desejando que o velho continuasse, perguntou: "E por que mudou para cá"? Tio dos Santos, depois de algum tempo, disse: "Seu moço, isso foi obra da ambição de um rapaz." Como foi? perguntamos. "Conte para o branco da cidade", disse o Fiscal. Continuou Tio dos Santos: "Naquele tempo o Abuí era bem povoado, pois muitos patrícios tinham morada naquele lago, por ser muito bom para a pesca. Tinha de tudo. Uma tarde chegou a casa de Tia Adolfina, uma índia velha conhecida em sua tribo como Pucui dos Tiryós, uma canoa com dez homens, dizendo que tinham ido fazer uma "viração''.
Tia Adolfina, Pucuí na língua indígena, parenta dos Pianacotós, Caxinuás, Cachorros e outras tribos do alto Trombetas, compreendia a linguagem dos bichos e escutou o conto do mutum - UUM! UUM. UUM! Assustando-se, pediu aos rapazes que não fossem à praia, porque o mutum estava dizendo em seu canto que um deles ia ser levado por um bicho. Os rapazes não acreditaram que tia Adolfina, a Pucuí, soubesse traduzir a linguagem dos bichos e fizeram uma grande algazarra chacoteando a velha e o mutum continuava com seu canto: UUM! UUM! UUM!
Passado algum tempo e já na hora de as tartarugas estarem saindo para a praia, os rapazes embarcaram na canoa e Pucuí, mais uma vez, os advertiu do perigo que iam correr. Olhem, dizia ela, o mutum continua a anunciar que um de vocês ira sumir, ao que não ligaram e foram embora.
Chegando à praia viram que o "cardume" que estava ali era grande e cada qual procurou virar quantas puderam, mas, um deles, o Pixico, muito ambicioso, não quis escutar os seus companheiros, quando lhe disseram que já bastava por ser difícil para carregar, e disse: "vou virar só mais uma grande que vi ali na ponta." Chegou perto e pegou no "colarinho" da bruta, mas viu que não podia virar e quis largar, mas sua mão estava pregada no casco. Pegou com a outra mão e aconteceu o mesmo, pisou no casco, atrás, e seus pés grudaram e, então, a tartaruga se dirigiu para o rio e Pixico gritava pelos companheiros que em vez de acudi-lo correram para o alto da praia, amedrontados, e Pixico foi sumindo nas costas da tartaruga ate desaparecer por completo nas águas do Trombetas.
Desde esse dia sumiu o tabuleiro da praia do Abuí, colocando- se agora nesta praia que está. Ha uma tartaruga grande, de cabeça branca, que ninguém tem coragem de chegar perto, ou com medo, ou crendo mesmo ser a mãe das tartarugas que desovam neste Tabuleiro, conhecido como da Tapagem, e também ha um jacaré grande que vive entre as tartarugas que os moradores da região acreditam ser Pixico que, assim, recebe o castigo de sua grande ambição". E assim, meu branco, que se acabam os grandes ambiciosos do mundo". E Tio dos Santos terminou a sua narração.
Perguntamos se Tio dos Santos conhecia outro Tabuleiro, ao que respondeu que sim, o Tabuleiro Grande que fica acima da terceira cachoeira (Portela) no Rio Grande, como é conhecido o Trombetas.
Agradecendo a Tio dos Santos a sua bondade em nos atender, fomos dormir para viajarmos bem cedo no dia seguinte, registrando aqui o nosso reconhecimento ao Fiscal Machado (Eduardo) e ao Tio dos Santos (Antonio), já descansando nas regiões eternas.

Anthymio Wanzeller Figueira (Grouxy)