Um profissional exemplar
Ethevaldo Siqueira - O Estado de S.Paulo (http://www.estadao.com.br) - 06 de março de 2011

As comunicações brasileiras perderam na segunda-feira passada (28/02) Renato Navarro Guerreiro, primeiro presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
O falecimento desse profissional exemplar merece algumas reflexões sobre o papel dos especialistas na área pública.
Aliás, quase todos os governos ao longo da história recente do Brasil se ressentem da falta de quadros profissionais especializados de alto nível em comunicações.

Renato Guerreiro dedicou sua vida ao setor de telecomunicações do País. Trabalhou na Telebrás e em diversas de suas subsidiárias (teles) antes de ser chamado pelo ex-ministro Sérgio Motta, em 1995, para ocupar uma secretaria do Ministério das Comunicações.
Sua contribuição ao processo de reestruturação das telecomunicações foi extraordinária. Ajudou o ministro a definir o novo modelo institucional, a elaborar o anteprojeto da nova Lei Geral de Telecomunicações (LGT) e a preparar a privatização da Telebrás.
Como presidente da Anatel, de 1997 a 2002, Guerreiro liderou um conselho diretor formado por cinco engenheiros experientes.
Contribuiu, assim, para a consolidação do novo modelo e para a implantação de uma agência reguladora com qualidade, profissionalismo e fidelidade aos objetivos da LGT, visando à competição e a universalização.
Em um seminário internacional sobre excelência em administração pública, no início dos anos 1990, na França, tive a oportunidade de assistir a diversas palestras sobre a importância da formação do funcionário público no mundo atual.
Aliás, a França sempre teve bons exemplos nessa área. Alguns de seus funcionários se tornaram líderes de grandes reformas, como o ocorreu com Simon Nora e Alain Minc, que encaminharam, em janeiro de 1978, ao então presidente da República Valéry Giscard D"Estaing um estudo denominado "A informatização da sociedade".
Esse trabalho se transformou em um clássico da convergência entre telecomunicações e informática. Foram Nora e Minc que criaram o neologismo "telemática" (telematique) para designar a fusão entre os dois setores.
O funcionário. Para mim, Renato Guerreiro - embora fosse dedicado prioritariamente à implantação de um novo modelo de gestão e regulação das telecomunicações - era também um exemplo de funcionário de alto nível, comparável a Nora e Minc.
Sua cultura ia muito além dos horizontes de sua formação como engenheiro de telecomunicações.
A propósito, o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, que sucedeu a Sérgio Motta em 1998, me deu seu testemunho sobre o ex-presidente da Anatel: "Renato Guerreiro foi para mim um exemplo do que se espera de um funcionário público graduado: competente em sua área, dedicado ao trabalho em sua função e engajado na busca das prioridades do governo a que serve".
Gilberto Garbi, ex-diretor da Telebrás e da NEC, relembra o papel daquele líder: "O espetacular sucesso alcançado pela privatização das telecomunicações no Brasil não teria sido o que foi sem a presença honesta, isenta, firme e lúcida de Renato Guerreio no comando da Anatel naquele período de consolidação. Neste País onde a regra é o mau trato da coisa pública, a perda de Guerreiro causa profunda tristeza em sua legião de amigos e admiradores".
Qualificação. Fernando Xavier Ferreira, que era presidente da Telebrás no tempo da privatização e que integrou a equipe do ex-ministro Sérgio Motta, dá o seu testemunho: "Tive o privilégio de conviver com Renato Guerreiro por um longo período, na condição de membros da equipe liderada pelo ex-ministro Sérgio Motta durante o processo de privatização do Sistema Telebrás. Renato Guerreiro se destacou por sua qualificação profissional, sua postura ética e comprometimento maior em bem servir a comunidade. Conduziu a Anatel conferindo-lhe relevância e respeitabilidade. É lamentável a perda precoce de um brasileiro que soube honrar o serviço público."
Antonio Carlos Valente, ex-conselheiro da Anatel, e hoje presidente da Telefônica, afirma que "a competência profissional e a postura ética de Guerreiro foram essenciais para a consolidação do novo modelo privatizado das telecomunicações".
Perfil. Renato Guerreiro nasceu em 15 de janeiro de 1949, em Oriximiná, pequena cidade do interior do Pará. Estudante brilhante, cursou engenharia de telecomunicações na PUC do Rio e foi trabalhar inicialmente na Embratel.
Passou depois pela holding Telebrás e outras subsidiárias. Desde 2002, passou a trabalhar como consultor. Um câncer no rim levou-o aos 62 anos.
Seu primeiro contato com Sérgio Motta se deu ainda em 1994, logo após a eleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a partir de uma contribuição espontânea para a reestruturação geral das comunicações que então se planejava para o País. Guerreiro elaborou o documento denominado "Uma infraestrutura para a revolução da informação".
Nesse documento, ele já previa uma nova lei para o setor e a criação de um órgão central para regulamentar e fiscalizar o setor. Sérgio Motta leu, gostou, discutiu com ele diversos aspectos da estratégia futura e convidou-o para ser o secretário-executivo do Ministério das Comunicações a partir de janeiro de 1995.