Guilherme Guerreiro Neto

Fiz esta reportagem em dezembro de 2009, como trabalho do curso de especialização. Agora resolvi postá-la para desembolorar o blog. Em retalhos. A cada semana, um trecho. Minha intenção durante a travessia fluvial foi garimpar algumas espécimes desse povo que habita a nossa Amazônia ou simplesmente está de passagem por ela.

A Bacia Amazônica, a maior do planeta, deixa as honras a cargo do garboso e corpulento Rio Amazonas. Por ele segue viagem o navio Nélio Corrêa. Ponto miúdo ante a imensidão. Estamos em dezembro, a uma semana do Natal. Redes atadas se amontoam num trançar de tecidos e vidas que por dois dias estão unidos, do deitar ao despertar.

Na embarcação, pequena amostra da diversidade humana que vagueia por estas bandas do Brasil. Mulher a caminho de reencontrar o irmão, cozinheiro que já teve sete mulheres, comandante atento aos efeitos das mudanças climáticas, ribeirinho que desistiu de sonhar, freiras franciscanas, missionário americano, universitários japoneses. A Amazônia das águas, das matas, da fauna, também é a Amazônia das gentes.

“Enquanto não chegar, eu tô nervosa.” Jacina quer ver Belém, capital do Pará, logo no horizonte. Como o navio mal saiu de Santarém, principal cidade do Oeste do Estado, terá de esperar. É o rio que a aflige. Maranhense de São Luís, Jacina Conceição migrou para comunidade próxima a Castanhal, no Pará, aos seis anos. Lá inundou o coração de medo d’água quando, ainda menina, viu uma amiga se afogar num igarapé. Nunca entrou no mar ou em rios.

Agora ela tem 55 anos e há 40 mora na capital. Foi a Santarém visitar a tia, já idosa e doente, e a irmã. Enquanto o navio desliza pelas águas, a mulher de cabelos eriçados e conversa fácil se alivia. Ganha incentivos. “Vai nem que seja amarrada”, garante Alfredo Alves – como se houvesse jeito de sair do navio àquela altura –, rindo da tensão da mulher. Há controvérsias sobre a idade dele: segundo Jacina, 79; Alfredo diz que tem 76. Certo é que trabalhou na roça e hoje está aposentado.

A bengala fica encaixada no piso da embarcação e Alfredo, com o peito enrugado à mostra, se acomoda na rede. A paixão começou numa festa de São João. Namoraram por seis meses, depois veio o casamento, faz 42 anos. “Ele sempre foi saliente, não tinha rodeio.” E o ar galante permanece. Jacina denuncia; Alfredo confirma. “Ela não tando por perto, dou cantada na rua.”

Poucos metros separam Alfredo e Jacina de Richardson Barros. Ele voa no balanço da rede e sonha, do alto de seus oito anos, com o dia em que será piloto de avião. Já entrou em um, certa vez. Foi de Itaituba, município onde mora, até Jacareacanga, ambos no Pará. Quando vem a noite, Richardson desce da rede e senta ao lado da mãe, com quem divide o jantar: sopa de carne com farinha. “Eu quero carne!” Rosa cata os pedaços de carne perdidos no caldo para atender ao filho.

Ela nunca teve a mãe por perto. Perdeu-a no instante em que ganhou o mundo. O pai morreu cinco meses depois, esfaqueado em Jacareacanga. Ficaram três filhos órfãos. Cada um rumou para a casa de uma tia. Rosilda de Azevedo criou Rosa, a única que continuou em Itaituba. Não teve mais contato com os irmãos.

Até que, em 2005, um deles, Mário, mandou carta por um homem de Itaituba que passara por Pirapema, no Maranhão. Ao voltar para casa, o tal homem pediu que uma emissora de televisão local anunciasse que trazia a correspondência para Rosa Dutra. Só então ela soube notícias do irmão.

Puderam conversar por telefone. Agora vai ao Maranhão com Richardson e Rosilda para o reencontro. De barco até Belém, de ônibus até Pirapema.

Depois de 28 anos, a menina que perdeu a família inteira com alguns meses de vida vai ter a chance de reescrever parte dessa história. “Dizendo ele, é branco, não é muito baixo… Aí só da pessoa falar assim a gente já fica imaginando. Chega na hora deve ser totalmente diferente. É engraçado.” Mas a sorridente Rosa nem está ansiosa para conhecer Mário. Não sabe bem o porquê.

A primeira escala da viagem é Monte Alegre. Chegada à noite após seis horas desde a saída de Santarém, com atraso, por volta de 15h15. Um borrão de breu ocupa a paisagem. Não fosse o cintilar das estrelas, céu e rio seriam uma coisa só. O município de Prainha é a próxima parada, já na madrugada.

Na saída de Monte Alegre, a embarcação enfrenta forte banzeiro. Alguns se apressam em garantir para si um entre os coletes salva-vidas dispostos no teto. O vento e a água agitados, que preocupavam, logo se aquietam. Estirado na rede, rendo-me ao sono antes mesmo de chegar a Prainha. Três dias de pois, no mesmo trecho, o barco Almirante Barroso naufragou. Morreram 14 pessoas, cinco eram crianças.