Dentre as várias homenagens e referências que conheço ao Círio Fluvial de Santo Antônio, em Oriximiná, merece destaque a que foi feita pelo Fernando Jares Martins, "jornalista, publicitário, amante de Belém e observador dos belenenses", e agora, certamente, também um amante de Oriximiná e apreciador de suas manifestações culturais, sobretudo das gastronômicas, sem falar de sua paixão maior por uma Guerreira digna representante dos filhos daquela "Taba Sagrada", como dizia seu sogro Guilherme Guerreiro. Esse texto foi publicado pelo Fernando em seu blog http://pelasruasdebelem.zip.net/, em 13/08/2009, quando do retorno da segunda excursão dos Guerreiros de Fé pelo Tapajós e Trombetas, a bordo do barco-motor "Búfalo", culminando com a participação no Círio de Santo de Antônio, e com tudo o que um bom cristão pode ter direito no perdoável, digamos assim, “pecado da gula”. Não consultei o Fernando para divulgar o texto, mas como estou dando todos os créditos do artigo, com certeza o "Parente" vai me perdoar, pois a causa é nobre. É importante ressaltar que na postagem original o poeta João de Jesus Paes Loureiro pode ser ouvido falando sobre o Círio de Oriximiná, em seu livro “Cultura Amazônica: uma poética do imaginário”, assim como pode ser ouvido o escritor, poeta e compositor J. Coelho, autor de “Círio de Santo Antonio”, com arranjo e voz de Dudu Fagundes. Vale a pena conferir.

http://pelasruasdebelem.zip.net/arch2009-08-01_2009-08-31.html#2009_08-13_19_29_57-10174982-0

VIVA SANTO ANTONIO DE ORIXIMINÁ!

Escrito por Fernando Jares

Santo Antonio é um dos santos mais populares da igreja católica, responsável por conseguir para seus devotos, de casamentos a localização de objetos perdidos. Para achar coisas, tenho experiência: é um santo remédio, perdoem o trocadilho... Para o casamento não precisei dele, isto é, será mesmo que ele nada teve com essa história? Afinal, “ela” é nascida em Oriximiná! Pois não é que o dito santo é o padroeiro de Oriximiná, belíssima cidade, incrustada em um cenário de rara lindeza natural, no oeste paraense.

Você conhece Santo Antonio, de Lisboa ou de Pádua (que nasceu numa e morreu noutra), mas muita gente não conhece o Santo Antonio de Oriximiná. Não se trata de um padroeiro em um sentido, digamos, clássico da palavra. Sim, isso ele o é, mas é muito mais: é gente da cidade, da comunidade, fala-se no Santo como de seu Eluzio, d. Dica, do Manoel, do Gabriel, do Argemiro ou do Gonzaga. Contam-se piadas sobre ele, gente boa, cantam-se paródias (engraçadíssimas, no contexto local) de seu hino e por aí. E fazem para o santo um belíssimo círio, que muitos consideram o mais bonito do Pará. Os mais exagerados pouquinha coisa, para usar a linguagem do jornalista Edwaldo Martins, até dizem ser o mais belo círio fluvial noturno... do mundo!
No meu andar embarcado pelos rios dessa região, fui participar do Círio de Santo Antonio de Oriximiná, no último dia 2, primeiro domingo de agosto.
Notaram que a festa é em agosto e não em junho, quando todo mundo festeja este santo? É porque agosto é o mês de nascimento dele! Aniversário dos amigos a gente festeja no dia do nascimento. (junho é a morte, que a igreja festeja como a data de entrada na vida eterna).
É a segunda vez que Rita e eu vamos nesta agradabilíssima peregrinação, junto com um punhado de parentes e amigos, “Guerreiros de Fé”. O que vi, mais uma vez, foi deslumbrante.
Dele já disse João de Jesus Paes Loureiro, que “uma liturgia de mistérios se instaura, sob os olhares de todos que assistem a cena”.
A imagem é trasladada na manhã do sábado, da igreja matriz na cidade, para uma vila ribeirinha. Este ano foi para a comunidade de N. S. do Rosário, no lago Caipuru – cada ano vai para uma comunidade em um rio ou lago. É de lá que o belo andor vai sair, no finalzinho da tarde de domingo, quando o sol já se encaminha para sua dormida diária (ou melhor, noturna).
A imagem começou transportada em um pequeno barco, nos idos de 1947, passou para um navio-andor e hoje vai em uma balsa ornamentadíssima, cheia de efeitos mecânicos e elétricos – até especialistas de Parintins, logo ali perto, são chamados para ajudar na decoração. Fica linda, festiva, com cara de alegria. É essa balsa, levando a imagem do santo, que vai liderar um grande grupo de barcos que fazem o corpo do círio fluvial, todos enfeitados, brilhantes, verdadeiro festival de criatividade e muitas luzes, luzinhas e luzonas.
Mas o especial, o único, vem antes de tudo isso: um tapete de pequenas luzes que flutuam pelo rio, ao sabor da correnteza, antecedendo a balsa-andor, transformando o leito do rio em um leito de luzes, um leito lindo e brilhante, nupcial, para a realização do amor do humano com e pelo divino. Um “lago de luzes”, como o chamou o Paes Loureiro. É sobre esse leito/lago que navegam a balsa-andor e as embarcações-romeiras.
Esse tapete luminoso flutuante é formado por milhares de velas, colocadas em pequenas rodelas de aninga, de 10, 12 cm de diâmetro, tendo no centro uma vela e, em torno dela, uma proteção de papel colorido. Dá para imaginar o efeito, nas águas escuras do Trombetas? Neste ano, a lua olhava lá de cima, quase enciumada, diante de tanta beleza conseguida pelo trabalho do homem. Foram mais de 12 mil destas velas espalhadas de pontos cuidadosamente escolhidos ao longo do rio – são colocadas n’água a partir de pequenos barcos (pô-pô-pôs), onde voluntários acendem as velas e colocam-nas a navegar.
Como elas são feitas? Aqui entra algo também muito importante: por estudantes de dezenas de escolas. Exercitam o voluntariado e aprendem a conservar uma belíssima tradição. Lição de cidadania.
O resto, é emoção. Dos que revêem, dos que vêem pela primeira vez, dos que o acompanham todos os anos. Não é um espetáculo: é uma manifestação de fé, cada um com sua forma particular, peculiar, de manifestar-se.
Quando chega ao porto de Oriximiná o andor com a imagem de Santo Antonio, que vem na balsa, é descido sob aclamação da população e de um festival de fogos de artifício, e segue um pequeno trajeto até a igreja que lhe é a morada durante o ano.
Em frente ao templo é celebrada missa com a participação de grande multidão – este ano foi presidida pelo novo bispo da região, d. Bernardo Johannes Bahlmann, da prelazia de Óbidos. E depois, já no caminho da meia noite, hora de jantar no Clipper de Santo Antonio, ao lado da igreja.
O professor, estudioso e pesquisador de nossa cultura e poeta João de Jesus Paes Loureiro tem um excelente trabalho sobre o Círio de Oriximiná, em seu livro “Cultura Amazônica: uma poética do imaginário”, e o o escritor, poeta e compositor J. Coelho é o autor de “Círio de Santo Antonio”.

CÍRIO DE SANTO ANTONIO
É agosto, domingo.
Domingo primeiro.
Estouro de fogos
e repicar de sinos.
Acorda Oriximiná,
pro teu padroeiro celebrar.

Sobre o cristalino do Trombetas,
nas sombras do alvorecer,
serpentes de luz de velas,
como velas de barquetas,
deslizam para indicar
de Santo Antônio, a passarela.
Enquanto o azul esverdeado
do belo Nhamundá,
faz-se mais azulado,
para a festa da fé iniciar,
homens, com o coração mais encantado,
dirigem ao porto seu caminhar.

Vivas, aplausos, exclamações
saúdam o  dragão iluminado,
cortejo de embarcações,
num rio de velas, como céu estrelado.

Dos fogos, o colorido,
relevo em céu prateado,
vivas ao desembarcar,
de Santo  Antonio mui amado,
menos de Lisboa, ou de Pádua,
muito mais de Oriximiná.