Opinião

Haiti: nossa parte

O Haiti tem 27.750 quilômetros quadrados; isto é pouco mais que a metade da ilha do Marajó, que tem 40.100 km2. Sua população total é de cerca de 8 milhões de habitantes – menos que a existente hoje na Região Metropolitana de São Paulo. O Haiti é o país mais pobre da América Latina.
No dia 1 de junho próximo completam-se 10 anos da criação da Minustah  - a força de segurança da ONU para a estabilização do Haiti – liderada pelo Brasil. Há dez anos estamos lá. Em 2010 o Haiti foi sacudido por um terremoto que arrasou o país. Até hoje mais de 300 mil pessoas vivem em 271 campos de refugiados, informa a agência EFE. Essas pessoas não têm nada: nem presente, nem futuro. Quando um campo desses é fechado, informa a mesma agência, elas são simplesmente expulsas. Além disso, o Haiti está na rota dos furacões: o último a passar por lá, a tempestade Sandy, piorou tudo.
No artigo “O Haiti é daqui”, o jornalista Renato Machado informa que a missão de paz do Brasil no Haiti já custou 2 bilhões de reais e que a tentativa de fazer uma hidrelétrica no país gorou. O custo, de 190 milhões de dólares, não teve financiador.
Bem, as ONGs brasileiras foram para lá. De muitos matizes: do Viva Rio ao MST, passando por igrejas de muitos credos. Mas a ajuda internacional está minguando, elas estão reduzindo a ação. Mas sobra pouco de saldo positivo da presença oficial brasileira: dois hospitais e 200 agentes de saúde.
Os haitianos aprendem português para viver um sonho brasileiro. Eles emigram, Mesmo vivendo nas condições que o Brasil oferece aos migrantes, é melhor aqui do que lá. Mas o Brasil, que está pagando caríssimas universidades europeias, canadenses e norteamericanas para graduar brasileiros, sequer ofereceu seus professores para recompor a única universidade haitiana, que perdeu metade de seu quadro no terremoto. Ou bolsas para os graduandos de lá virem estudar aqui.
A imensidão brasileira recebe migrantes de toda parte do mundo. Já se disse que a maior cidade libanesa está em São Paulo. Estamos recebendo uma enorme quantidade de chineses. Cada um por si.
Mas fazer haitianos de peteca, despachá-los do Acre para São Paulo de qualquer maneira é uma coisa absurda. Embora não haja muito de novo nisso: houve época em que governos nordestinos enchiam paus-de-arara e mandavam para o Pará. Sem aviso.
No entanto, a saída de haitianos de seu país mostra claramente que os dez anos de presença brasileira no Haiti não mudaram muita coisa, mesmo que se considere os limites impostos por uma ilha à população residente. Na verdade, nesse período o Brasil ajudou mesmo foi Cuba. O porto de Mariel custou quase um bilhão de dólares (957 milhões, diz o principal financiador, o BNDES). O programa Mais Médicos transferiu 40 milhões de dólares, limpinhos, para o governo cubano. Para citar só duas ações.
Agora, o governo brasileiro apresenta uma solução para o Haiti: vistos de imigração sem limites. Que, aliás, os funcionários da Embaixada não dão conta de emitir e nem os haitianos de pagar. Ou seja: nada. Uma política tímida e caolha, pouco solidária e muito, mas muito, imperialista.
Cidades violentas – Transcrevo a seguir nota de esclarecimento da ONU que os jornais não publicaram sobre a lista de cidades mais violentas do mundo:
“Após o lançamento do Estudo Global sobre Homicídios 2013, em 10 de abril, alguns veículos de comunicação atribuíram ao Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) uma lista que coloca 11 cidades brasileiras entre as 30 mais violentas do mundo.
Por meio desta nota, o UNODC reitera que essa lista não consta no referido relatório e que, portanto, não pode ser atribuída à Organização das Nações Unidas. O Estudo Global sobre Homicídios busca oferecer uma visão abrangente sobre os homicídios ao redor do mundo. Como este tipo de crime é um dos indicadores mais precisos e comparáveis para a medição da violência, seu objetivo é melhorar a compreensão do fenômeno a nível global.”
Quem se retrata?
Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br), domingo, 4 de maio de 2014. Escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná.
 

As bananas e o cacho europeu

David Stafford é um respeitado historiador inglês. E dele estou acabando de ler o livro “Fim de jogo – 1945” que relata, numa linguagem agradável que apresenta uma rigorosa pesquisa, os últimos dias da II Guerra Mundial na Europa.

É preciso estômago forte para ir até o final do livro, tal o rosário de misérias e atrocidades. Mas o que Stafford traz de novo, para além dos campos de concentração e de extermínio, é exatamente a quantidade de pequenos conflitos étnicos que irromperam com o final da guerra: as matanças não visavam apenas os alemães mas também ajustes de ressentimentos cultivados e ódios antigos. Ele demonstra, sem dizê-lo expressamente, que o nazismo foi apenas uma floração dolorosa do racismo europeu, cujas raízes estão profundamente entranhadas na sua cultura. Como bom inglês, ele fala da Europa como que a Grã-Bretanha não fizesse parte dela – talvez porque seja doloroso demais comprometer-se.

E eis que o racismo europeu apresenta, agora, bananas. Um gesto de torcida, diriam, punível pelos órgãos de futebol. Mas as bananas atiradas nos campos de futebol estão ligadas a um conjunto de outros fatos que, nos últimos anos, vêm ocupando os noticiários e, aparentemente localizados, informam que a Europa, Grã-Bretanha incluída, esqueceu a dura lição da guerra, ou não quis aprendê-la. Atirou a culpa nos nazistas, uma massa informe e indistinta, com alguns nomes de proa, e lavou as mãos.

Esses fatos o leitor encontrará facilmente. A recepção dada aos imigrantes clandestinos africanos em Lampedusa, na Itália, com todos nus recebendo duchas de desinfetante num pátio aberto; as expulsões de imigrantes e as leis duras contra eles, que a França está aprovando e a Inglaterra já aprovou; a hostilidade dos portugueses contra os brasileiros; a investida contra os ciganos – que também sofreram um holocausto na II Guerra - deportados pelos países latinos para a Romênia e tratados como párias em toda a Europa; e, ainda agora, a crise da Criméia, com russos e ucranianos disputando território com base na etnia - todos esses fatos são sinais inequívocos de que cada tribo europeia ainda acha que o seu umbigo é superior e diferente daquele dos outros.

Então as bananas são coisa séria: refletem uma posição coletiva, um ânimo discriminatório latente e continuado. E oferecem o risco da contaminação, quando, por exemplo, torcedores brasileiros – estes, sim, macacos imitadores – decidem fazer o mesmo. Além disso, não se pode desprezar o valor político do esporte. Os pódios olímpicos servem para muito mais que condecorar campeões. Serviram, em 1968, para engrossar a luta pelos direitos civis dos negros americanos e, em 1936, para reforçar o nazismo alemão. Neste ano, serviram para a afirmação russa.

O cacho europeu está engrossando e nos cabe não permitir que as bananas que dele saem contaminem, como contaminaram nas décadas de 1930 e 1940, o mundo todo. Embora em crise econômica, o poder europeu ainda é considerável, principalmente ao se considerar a influência sobre o conhecimento: seu conjunto de ciência e tecnologia é capaz, ainda, de conduzir o pensamento ocidental.

Há que bloquear as bananas, já que erradicar a bananeira está fora de nosso alcance. E tempos que ser duros nesse bloqueio: não basta a punição das autoridades desportivas sobre os clubes e, embora atitudes como as de Daniel Alves e Neymar sejam importantes enquanto reação de atletas, é preciso ter claro que bananas em campo, no Brasil, devem ser caso de polícia. Sem exceções.

Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br), segunda-feira, 28 de abril de 2014. Escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná.

 

Ovo de Páscoa

Era uma vez um coelhinho encarregado de distribuir ovos de Páscoa.

Ele saltava e saltava, carregando uma cesta mágica que nunca se esvaziava. Não era absolutamente um coelho bonito e fofinho, tipo cartão postal. Tinha barbas e às vezes era confundido com um sapo. Mas era saltador, ora se era, conseguindo escapar de todas as armadilhas colocadas pelos djins que habitavam as campinas auriverdes e que insistiam em capturá-lo.

Djins, vocês sabem, são aqueles gênios que vivem interferindo na vida das pessoas, às vezes para o bem, às vezes para o mal. Costumam fazer desaparecer as tampas das vasilhas de plástico, de forma a deixar as donas de casa irritadas e sem explicações; gostam de fazer com que apareçam risquinhos nas latarias dos carros e somem também com o brinquedo favorito da criança de dois anos, só para fazê-la chorar. Por outro lado, também desviam seu pé do espinho no caminho e ajudam você a ter uma bela ideia para sair de uma encrenca.

Os ovos que o coelhinho distribuía eram mágicos, e, portanto, ilusórios. Criavam aparências de felicidade e a pessoa começava a agir como se aquilo tudo fosse real, para sempre, mas a felicidade não se sustentava e a pessoa tentava alcançá-la novamente de qualquer jeito e maneira, o que acabava muitas vezes em violência. Os djins não tinham nada contra a magia, mas acreditavam também em limites, e o coelhinho conseguira passar todos eles: os ovos que distribuía estavam levando aquele povo á beira do desespero o que, como vocês sabem, conduz à crueldade e ao desastre.  O que teria uma consequência terrível para os djins: eles seriam novamente confinados em cavernas e ocos de árvore, porque, com o predomínio da magia negra, os gênios teriam que se comprometer com o mal ou desaparecer de cena.

De si mesmo, o coelhinho não era do lado escuro da força. Mas não conseguia escapar de sua influência e ela se instalara em muitos dos ovos. Por exemplo: os ovos que continham a tolerância, o lado escuro da força envenenara com a permissividade. Cada vez que alguém abria um ovo desses criava um caos localizado. Muitos caos localizados não criam um grande, mas criam condições para que se instale um caos geral. Os ovos que continham melhoria de vida, envenenados com ambição, atiravam o seu possuidor para qualquer ação que lhe permitisse mais dinheiro e, então, o crime lhe ficava acessível e viável. E, aí, como as pessoas não haviam feito nenhum esforço para alcançar os ovos, achavam que tinham direito a mais e mais, o que criava um impasse que só a magia poderia resolver. E não havia magia possível para tantos impasses.

Por isso os djins espalhavam as armadilhas mas o coelho, bom saltador, evitava todas elas. E, então, nesse ano, os djins resolveram mudar de tática. Decidiram quebrar os ovos da cesta do coelho. Era perigoso, por certo, porque criaria um enorme tumulto quando aquela gente descobrisse que os ovos tinham acabado. Mas, por outro lado, permitiria que as pessoas descobrissem também a realidade em que viviam e talvez encontrassem saídas. A esperança dos djins estava no fato de que a espécie humana sempre encontra por onde escapar da própria destruição.

Usando sua prática no sumiço das coisas domésticas, os djins começaram a apanhar os ovos na cesta do coelho e quebrá-los, mostrando às claras o lado escuro da força que se instalara neles. E aí o coelho começou a saltar para fugir da força que escapava de sua cesta e que ameaçava arrastá-lo de vez para aqueles espaços obscuros onde ficam a estrela da morte, a bacia de Pilatos e os grupos de extermínio.

A ação dos djins também provocou um encarecimento absurdo do preço dos ovos de chocolate, que eram o consolo de quem não ganhava ovos do coelhinho barbudo, fazendo com que neste ano da graça de 2014 a Páscoa reúna muitos escândalos e medos e muito poucas compensações.

Mas como Páscoa é ressurreição e esta é uma retomada de vida, eu desejo um ovo de esperança para todos.

Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br), domingo, 20 de abril de 2014. Escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná.

 

Meiguices

Estive fora do ar na semana passada por conta do que chamo “a gripe de abril” – ela me derruba todos os anos, no mesmo mês. Mudança de estação, acho. Por conta da gripe, eu gostaria de escrever só sobre coisas belas e suaves – meigas, como diz a Mônica do Maurício Souza. Mas as meiguices que encontro... Vejo e ouço o ministro Mantega dizer na televisão que a inflação é sazonal. Pois vejam o que ele disse no ano passado, como publicou a e-revista “Época”, em sua edição de 15 de abril de 2013, sob o título “A inflação do tomate”:

O governo só se pronunciou sobre o assunto depois que o índice foi divulgado, na última quarta-feira. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que não pouparia esforços para evitar a alta de preços e quis demonstrar otimismo. Afirmou que a entressafra agrícola terminará em breve, que as pressões sobre o setor de serviços estão mais brandas. Também lembrou que a inflação de março foi a mais baixa do ano - segundo ele, um bom sinal.

Igual ao que ele disse agora – mas o bom sinal foi para o espaço, porque o IPCA (índice de preços ao consumidor ampliado) de março de 2014 foi o mais elevado dos últimos 11 anos. A presidente vai para a tevê para dizer que chove demais de um lado, seca demais de outro e, por isso... E aí o pessoal da carne vem e diz que sabe como é, a estiagem anual começou muito cedo e, então... E o padeiro da esquina explica, pela décima vez, que o dólar subiu e o trigo é argentino e, desse jeito...

Meigo demais para o meu bolso. Mais meigo ainda quando vem o Lula dizer que “temos que defender a Petrobrás com unhas e dentes” depois de ter permitido que a empresa chegasse ao ponto que chegou. As unhas e os dentes do Lula se mostraram mesmo foi na desmoralizante pizza antecipada proporcionada pela chamada base aliada. Se, antes, as CPIs acabavam em pizza, agora começam com pizza. Eu só queria saber quanto essa pizza rendeu para a base. Porque quanto custou para nós, cidadãos, eu sei: a Petrobrás.

Pensando bem, o problema é ser ex. Ex-aliado, como Eduardo Campos, que foi ministro lulista e agora ousa ser ex. Renan Calheiros o ameaçou de devassa no Ministério que comandou. O que o Renan sabe que a gente não sabe? A intimidade do governo. Que, pelo jeito, é mais podre do que se pensa.

E aí vem o falso ranqueamento da ONU colocando Belém como a 23ª cidade mais violenta do planeta. Mas, rapaz! O disparate é tanto que nem precisaria conferir. Mas eu fui conferir. Bem, a ONU não fez ranqueamento (nem pode; as estatísticas dependem de registro que, em países pobres ou emergentes, são muito falhos; o relatório até tem um mapa das cidades mais populosas do mundo – do Brasil, só S. Paulo aparece – mas com mais casas em branco que números). Dos dados existentes, as capitais do Panamá e de El Salvador aparecem com as maiores taxas: 53 e 52 homicídios no ano para cada grupo de 100 mil habitantes.

Agora eu gostaria de saber quem foi a alma penada que listou as 30 cidades brasileiras.  Dei uma zapeada nas principais agências de notícias: nenhuma delas apresenta o tal ranqueamento. Vou mais adiante e descubro que o ranqueamento foi feito “pelo jornal O Globo com base em um documento do relatório”, informa Renan Truffi, no “Carta Capital”. Vou a O Globo: Marcelo Remigio é o nome do homem. Ele usou dois relatórios, um da ONU e um de uma ONG mexicana. Fez uma bela salada e serviu um fake, um engodo. Daí todo mundo reproduziu, sem citar a fonte (mau jornalismo, mas muito comum), dando uma aparência de verdade. Quero ver se O Globo se retrata, agora. Porque não tem ranqueamento e sequer base de dados completa no relatório da ONU.

E por falar em violência: se não forem tomadas medidas enérgicas agora, por quem de direito (leia-se Justiça Militar) o motim feito pela Polícia Militar na semana passada vai ser só um ensaio geral. Certas coisas não são meigas, motim é motim e funções de Estado são inegociáveis.

Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br), domingo, 13 de abril de 2014. Escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná.

 

Dona Dilma foi à despensa

Só de ouvir, quase não acreditei. Então fui ler a íntegra dos discursos da presidente Dilma no site oficial da Presidência. Afora algumas pequenas correções, como trocar a ordem de citação dos senadores, eliminar “as paraensas”, o resto está tudo lá. Dona Dilma foi à despensa da casa, reuniu o pessoal, fez um agrado e deu as instruções.

Mais que a inépcia oratória (tenho que usar essas palavras, não posso simplesmente dizer que ela é um desastre fazendo discurso, ficaria grosseiro demais) o que é notável nos discursos é refletirem eles fielmente a posição que a elite brasileira tem em relação à Amazônia. A despensa de onde tirar a solução dos problemas, aqui e agora, não importa o custo futuro, não importa o que pensem e o que queiram os habitantes da região.

Até mesmo a gafe recorrente, de trocar o Estado onde se encontra – Marta Suplicy  a antecedeu em gafe igual – faz parte desse quadro. Duvido que Dilma trocasse o Paraná por Santa Catarina. Para usar uma expressão dela, nunquinha.

Dona Dilma apresentou a hidrovia do Tocantins-Araguaia principalmente como uma solução para desafogar os portos do Sudeste, e destinada ao escoamento da produção de grãos do Centro-Oeste. Do ponto de vista amazônico só conseguiu registrar a possibilidade de distribuir pela hidrovia a produção da Zona Franca de Manaus - hoje um enclave paulistano no Amazonas - destinada ao Sudeste, naturalmente.

Anunciou que a União está gastando pouco mais de 600 milhões de reais no Sudeste Paraense. O grosso desse dinheiro foi aplicado em linhas de transmissão de energia para “que a gente tenha um sistema elétrico mais robusto”. Para quem mora nos arredores de Tucuruí e até hoje não tem luz elétrica, deve fazer mesmo muita diferença.

Em Belém, salientou que em três anos e meio a carteira de financiamentos para mobilidade urbana alcançou um bilhão de reais. Ela juntou dinheiro gasto com dinheiro por gastar e deu isso. Bem, um bilhão de reais é quanto a União está gastando em apenas duas das 31 ações realizadas no Rio de Janeiro para a Copa 2014 (compra de mobiliário para o Maracanã, 660 mil; e instalação de elevadores no Galeão, 477 mil). Só nos BRTs do Rio de Janeiro (são dois) são mais 1,2 bilhão de reais.... Os dados são do Portal de Acompanhamento de Gastos da Copa 2014, que traz todas as licitações realizadas.

O pessoal da despensa até agradece a lembrança e o agrado, este conseguido depois de um longo e penoso percurso de gabinetes e salas de espera, discussões e pressões, um movimento paraense que reuniu todos os partidos e todos os políticos. Todavia não consegue esquecer que o salão usa a despensa quando bem entende e assim o quer, e se dá uma coisa, toma o dobro. Adoça a boca para obrigar a engolir o amargo.

Mas não culpem apenas a dona Dilma, se ela não conhece direito a despensa: o salão é exigente e os cortesãos, absorventes. Como é que ela vai ter tempo de olhar essas miudezas? Afinal, a gente só entra na despensa quando precisa desesperadamente de alguma coisa de lá, tipo resolver o sufoco de Santos ou contornar a crise do setor elétrico; fora isso, basta mandar os mordomos...

Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br), domingo, 23 de março de 2014. Escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná.

 
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