Opinião

Belém, cidade do mundo

Ontem foi o aniversário de Belém.

Muito menina, vinha de Cametá no “3 de Outubro”, gaiola fumacento e lento. Sabe “O amor nos tempos do cólera”, de Garcia Márquez? Era assim mesmo. Paradas para a lenha, para embarque em Igarapé Miri e Abaetetuba, a travessia na baía com todas as mulheres de terço na mão.

Das chegadas, o que permaneceu foi um aroma: couro e gasolina, o cheiro dos chamados carros de praça, dirigidos por um chauffeur que cobrava conforme a cara do freguês. Belém me deslumbrava.

Na vinda definitiva, Batista Campos, no início dos anos 50. Era subúrbio. Um dos critérios para a escolha da casa foi estar perto do final da linha de ônibus, de forma que sempre se poderia viajar sentado. Havia uma vacaria defronte de casa, e pela manhã o leiteiro saía na carrocinha, a tocar o sino, com seus litros arrolhados com cortiça e suas vasilhas de alumínio. Despertava-se o Ano Novo batendo com pedaços de ferro nos postes também de ferro.

Não pensem que tenho saudade. A água pingava das torneiras, o que obrigava a turnos de bomba manual para encher depósitos ou, então, baldes sem parar, o dia inteiro. As lâmpadas eram como brasas: havia necessidade de aladins, candeeiros e velas. Os fogões eram a querosene, como as caríssimas e raras geladeiras. Períodos havia em que a família se revezava nas filas: para a carne, para a batata, para o pão, para qualquer produto que chegasse de fora. A carne era vendida com osso e peles, e, diariamente, havia brigas nos açougues. E os ônibus eram de madeira.

Hoje, meio século depois, vivo uma outra cidade que, no entanto, é a mesma. Nem melhor, nem pior. A escala de problemas é outra, a de vantagens, também. O bate-boca do açougue se organiza agora em filas no Procon. Há semelhantes movimentos de caridade, festas juninas, Círio. O abastecimento de água e de energia não foram completamente resolvidos e as valas continuam a céu aberto. Há muito mais gente, há muito mais barulho mas também há muito mais alternativas para a sobrevivência – ou não chegariam aqui tantos imigrantes.

Da mesma maneira que na década de 50, continuamos a reboque do Brasil, seguindo os modismos e as ideias malucas que chegam de Brasília. Belém se despersonaliza, pouco a pouco se torna igual a todas as outras.

E é esta cidade que vejo renascer agora: um lugar onde o viajante chega e se sente à vontade. Há sanduíches, supermercados e shoppings, no mesmo formato dos que existem em Hong-Kong ou Florianópolis. Há jeans e camisetas de marca conhecida. Há comida nativa e comida internacional, mais esta que aquela.

Duvidam? Pois a nova geração de nascidos aqui sabe o que é um morango, mas são poucos os que já viram um jenipapo... Menos ainda os que sabem usar um remo. Eles conhecem igarapés por fotografias e se você falar “Axi!” eles corrigirão: “É axé que se diz!”

 

Não pensem que lamento: apenas constato. Será muito bom se as pessoas que viverão aqui em mais 50 anos puderem viver melhor do que vivemos agora. Numa das cidades do mundo, uma cidade qualquer, Belém do Pará.

Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br), 13/01/2014.

Escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná.

 

Conto de Natal

Contos de Natal geralmente são melosos e chorumelentos. Há sempre alguém sofredor de grandes olhos arregalados e uma alma com acesso de remorso ou de bondade. Este, posso lhes garantir, não é assim. Até porque a bondade raramente passava pelo coração do senhor Arq, carinhoso e oportuno apelido dado pelo pessoal do engenho a Archybald Souto, para ficar em apenas dois de seus nove nomes, visto que eram poucos os capazes de pronunciar o nome inteiro. É, o conto é ambientado naquela zona de transição entre a libertação dos escravos e a chegada do grosso dos imigrantes, quando a mão de obra na lavoura se tornou rara. Não que isso alterasse muito as coisas nestas fazendas amazônicas, visto que escravos havia poucos: s selva, velha conhecida dos ioruba e dos banto, que com ela conviviam na distante África, propiciava a fuga e os quilombos, desestimulando as compras pela dificuldade de manter a propriedade. Mas, mesmo assim, foi um golpe para os pais de Arq, acostumados a várias e diversas mordomias proporcionadas pelos escravos domésticos. E, é claro, para Arq também: da noite para o dia, os moleques em quem mandava e desmandava, batia e xingava, se tornaram inalcançáveis. Aqueles pretinhos agora fugiam. E alguns o desafiavam, mesmo, tomando a liberdade com as mãos, os pés, a cabeça e o sangue guerreiro que gritava neles repelindo os insultos.

Arq se preparava para o Natal. A fazenda não tinha capelania, de forma que a vinda do padre para celebrar a missa do Natal era um acontecimento. Mas tinha seu grupo de beatas, o terço obrigatório às seis da tarde, o catecismo enfiado na cabeça através das mãos, empurrado em bolos de palmatória. Arq recebia suas aulas e seus bolos em separado dos negrinhos; as palmadas, entretanto, eram iguais para ele como para os outros. Assim, pelas frestas da porta e das janelas da salinha onde ardia permanentemente uma lâmpada de óleo diante do crucifixo, a meninada negra se vingava espiando Arq gritar de dor a cada resposta errada. A beata encarregada acreditava que aquela punição complementar, proporcionada pela plateia clandestina, ajudaria o seu pupilo a aprender mais depressa, embora o efeito fosse contrário: Arq, com raiva, tropeçava no Pai Nosso em todas as aulas.

Ora, os negrinhos agora eram completamente livres e a liberdade lhes permitia grandes risadas a cada grito de Arq. Além de que era proibido chorar: o menino branco ficava vermelho com o esforço de engolir soluços, lágrimas e raiva, o que divertia enormemente a criançada. Na saída dessas aulas Arq não encontrava ninguém. A garotada desaparecia, porque afinal de contas se tratava do filho do patrão, um filho d’algo cuja palavra sempre valeria mais do que a deles. Arq se desabafava no que encontrasse pela frente, inanimado ou não. E de tal forma que até as galinhas, que todo mundo sabe que não têm um pingo de cérebro, fugiam assim que o percebiam.

Pois Arq se preparava para o Natal: precisava decorar o “Venite Adoremus” que a beata de ocasião encasquetara que ele deveria cantar na noite santa, acompanhado por ela própria ao piano, que martelava com gosto enquanto o pequeno se esganiçava:

Adeste fideles, laeti triumphantes,
Venite, venite in Bethlehem!
Natum videte, Regem angelorum
Venite adoremus, Venite adoremus,
Venite adoremos Dominum.
Aeterni parentis splendorem aeternum,
Velatum sub carne videbimus;
Deum infantem pannis involutem.
Venite adoremus, Venite adoremus,
Venite adoremos Dominum.

Invariavelmente Arq tropeçava do “velatum sub carne videbimus”, da mesma maneira como todo mundo tropeça no hino nacional, entre “Brasil de um sonho intenso” e “Brasil de amor eterno”. Em vez de “velatum” cantava “venite” e um forte acorde do piano era seguido pela voz aguda da beata: “ve-la-tum” e pelos risinhos daqui e dali.

De tanto prestar atenção no Arq a meninada negra aprendeu a cantar do seu jeito:

“Déste, fidéste, léti o elefante,
venite, venite in Be-e-tlém.
Nato vidéte régi ano loro,
venite adoremo, venite adoremo,
venite adoremo do-o-minó”.

Às proximidades do Natal a beata desistiu da segunda estrofe do hino. Arq conseguiu então ensaiar corretamente, e ensaiou tanto que a música ficou na sua cabeça, repenicando. E repenicou até o momento em que ele se postou do lado do piano, e soaram os primeiros acordes. Aí, deu branco.

A beata olhou para ele e iniciou de novo. Arq, nada. Ela tocou pela terceira vez e então a meninada correu em socorro:

“Déste, fidéstes...”

Arq tomou prumo e tentou controlar a situação, cantando a plenos pulmões, tentando sobrepor sua voz ao do coro improvisado. Não deu. As vozes brancas gritavam “venite, venite” e, quando soou o último acorde, o padre estava emocionado.

Tanto que nem percebeu a cara de escândalo da beata, o rosto horrorizado da dona da casa, a raiva contida nos olhos do pai e exposta na vermelhidão do rosto de Arq. Levantou-se da cadeira e elogiou

“a grandeza de alma dos que organizaram um tão belo coral, mostrando o verdadeiro espírito de Natal”.

Depois os brancos foram para uma mesa, do lado de dentro, os negros para outra, do lado de fora, Arq foi cumprimentado e a criançada negra se atirou sobre um raro café da manhã, temperado por uma doce desforra.

Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br), 22/12/2013. Escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná.

 

Nós e os bichos

No convento de Santo Antonio, no Maranhão, os turistas podem conhecer a curiosa história dos padres franciscanos que, no início do século XVIII, moveram um processo contra as formigas que lhes roubavam a comida e ameaçavam derrubar o convento com seus túneis. As formigas tiveram um defensor designado; e tão bom que convenceu os juízes a simplesmente escolher um lugar novo para elas e, em seguida, ordenar que se mudassem, E, conta o padre Manuel Bernardes no seu livro “Nova Floresta”, elas se mudaram.

Os padres do Maranhão não estavam inovando: eles apenas repetiam uma prática medieval, já então caída em desuso na Europa, pela qual os animais eram processados e julgados. Touros, porcos e cavalos homicidas eram presos e julgados regularmente por um tribunal civil. E não eram mortos de qualquer maneira: eram executados por carrasco (que usava luvas para não sujar as mãos com a execução de um animal) na forca, com direito a escolta armada e carreta. As pragas da lavoura – ratos, insetos e sanguessugas – compareciam a um tribunal eclesiástico, representados por um defensor de ofício. Eram sentenciadas, advertidas, recebiam um espaço de terra para onde se recolherem (uma espécie de reserva para ratos ou insetos, que era periciada para que se soubesse se havia condições de sobrevivência para eles ali) e, se não obedecessem, eram excomungadas. Não raro, a população agricultora alvo da praga era advertida também, para que melhorasse os costumes, reduzisse os crimes e pecados, rezasse mais e... pagasse o dízimo em dia.

Há tratados jurídicos justificando estes procedimentos, que vigoraram durante toda a primeira metade do milênio medieval. A base fundamental desses tratados é o direito natural dos bichos à vida. A crítica ao procedimento judicial, que surgiu a partir do século XV, não discute esse direito: apenas considera que, não tendo os bichos razão nem juízo, submetê-los a um processo é uma inutilidade dispendiosa, visto que o processo existe – segundo os juristas de então – para que o réu tome consciência do seu crime e reconheça a sua punição, o que é impossível para um irracional.

Hoje, quando os direitos dos animais estão na ordem do dia, estas antigas práticas parecem ridículas mas, no processo dos padres do Maranhão, por exemplo, a petição inicial para intervenção do tribunal canônico exemplifica claramente que levava-se as formigas a juízo pelo fato de serem elas, como tudo o mais na natureza, tratadas como irmãs pelo fundador da Ordem Franciscana. E não pouco latim foi gasto pelos tratadistas medievais explicando o direito de defesa que deveria ter um bicho, mesmo homicida: era preciso provar sua culpa. A pena para o dono era a perda do animal, e não era uma perda pequena, se considerarmos a pobreza daqueles tempos.

Naquela época era possível, também, mandar as pragas para uma reserva. O caso do Maranhão não é o único e nem sequer raro. Atualmente, humanos e demais bichos disputam cada centímetro do espaço no planeta. Queiramos ou não, a quantidade de espécies exterminadas por pura impossibilidade de sobrevivência cresce a cada dia. Hoje, os banidos para espaços reservados não são as pragas: são quase todos os animais, transferidos para galinheiros, estábulos controlados, reservas selvagens ou, simplesmente, residências e apartamentos. A liberdade deles está quase no fim. Quanto às pragas, são, simplesmente, exterminadas. O que se vai com elas – animais consumidores de insetos, elos na cadeia alimentar natural – é difícil de mensurar. Mas é evidente que estamos a cada dia empobrecendo mais e mais a biodiversidade.

Por isso que é triste testemunhar a brutalidade com que o Brasil está se apropriando da Amazônia e o processo predatório instalado aqui, esgotando rapidamente tudo o que é renovável e sustentável. No próximo século muito provavelmente seremos nós, e não as formigas, que estaremos sendo severamente julgados. E já não haverá mais para onde ir.

Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br), 16/12/2013. Escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná.

 

A assombração

Nos idos dos 1960, nascera na Juventude Universitária Católica, a JUC, uma facção de esquerda chamada Ação Popular. Baseada na teologia da libertação era composta por jovens católicos envolvidos em política – a melhor maneira de construir o bem comum, como diz hoje, meio século depois, o papa. Esses jovens católicos confrontavam os comunistas que, clandestinos mas poderosos, organizados e sérios, tentavam controlar completamente o movimento estudantil. Eram uma boa alternativa para uma esquerda livre do predomínio soviético. A diferença fundamental entre os católicos de esquerda e os comunistas pode ser resumida assim: para os católicos, os meios eram tão importantes quanto os fins; para os comunistas, os meios justificavam os fins. Isso parece pouco, mas é um abismo inconciliável. Estávamos, entretanto em plena guerra fria: “quem não está comigo está contra mim”, diziam russos e norte-americanos. Quem não estava com nem um, nem outro, foi liquidado.

Veio o golpe e a AP, que mal se formara, foi considerada inimiga do regime. Conseguiu, no entanto, fazer o congresso da UNE de 1965 e controlar a entidade, já ilegal. Entre os militantes da AP estava José Dirceu, vindo da União Estadual de Estudantes de São Paulo. Inteligente e extremamente persistente, apoiado pelo poderio paulistano, José Dirceu conseguiu convencer as lideranças que era melhor fazer o congresso da UNE de 1966 em São Paulo. O congresso de 1965 tinha sido feito em Minas Gerais: o discreto e eficiente povo mineiro segurara a onda sem problemas.

José Dirceu expôs esquemas de segurança e assumiu a responsabilidade. O congresso se reuniu e todo mundo foi preso. José Luiz Guedes, eleito presidente, saltou do ônibus-cadeia em movimento para escapar. Conseguiu e retomou o bê-a-bá: começar de novo com todas as lideranças devidamente identificadas, “queimadas”, como se dizia então, com a única opção da clandestinidade absoluta.

José Dirceu manteve-se como quadro de liderança de AP. Mas a facção enfrentava enormes dificuldades: foi rejeitada pela ala conservadora da igreja católica, cujos integrantes, em muitos casos, denunciaram os militantes, como aconteceu com frei Betto, obrigado a uma fuga incessante para escapar da cadeia. A JUC também se desmontou. Mas a AP tinha milhares de militantes não comunistas. De alguma forma eles tocavam o barco. Até o dia em que a direção nacional da organização, a qual José Dirceu integrava, decidiu que era tempo de abraçar a causa comunista. Razões? A URSS financiava e os escrúpulos eram poucos: afinal, para eles, os meios justificam os fins. A AP, católica, virou a APML – Ação Popular Marxista Leninista, defendendo a luta armada. A esmagadora maioria dos militantes deixou a facção, indo enfrentar solitariamente seus destinos. A APML virou mais um segmento comunista, do mesmo tamanho da Polop, VAR, Var Palmares etc.

Muitos viraram fantasmas, mergulhando de cabeça na clandestinidade. Outros passaram a ter vidas duplas. A esquerda católica, entretanto, conseguia dialogar com os comunistas e lhes oferecia a proteção que podia, ajudando a solapar o regime e preservando vidas. A APML, um pouco por sua origem católica, um pouco pelo fato de que os militantes haviam deixado de ser estudantes e eram obrigados a trabalhar na iniciativa privada, voltou-se para o movimento sindical e, em conjunto com outros segmentos comunistas, apostou nas lideranças dos sindicatos de trabalhadores nas indústrias, o mais importante dos quais, o dos metalúrgicos de São Paulo, tinha uma liderança carismática, muito próxima dos católicos, o Lula. Não sei quando José Dirceu e Lula se encontraram, mas sei que, desde a primeira greve no ABC, na década de 1970, Dirceu já era o fantasma do Lula.

Como toda assombração, era fluido o suficiente para desaparecer por detrás da barba hirsuta do metalúrgico. Fez as pontes necessárias para que Lula aproveitasse toda aquela enorme estrutura do clero de esquerda, derrotado pelos conservadores dentro da Igreja Católica, para a organização do PT. O crescimento do partido levou, necessariamente, seus líderes à elite política. O aprendizado levou algumas décadas, mas foi completo: discursos para o povo e manobras nos bastidores; uma versão no palanque, outra no gabinete. E algumas máximas clássicas da política: não se faz nada sem dinheiro; é preciso ir onde o dinheiro está; o feio é perder.

Lula no palanque e seu fantasma, Dirceu, nos bastidores. A guerra fria terminou, os comunistas puderam ocupar seu espaço legítimo, o fim da clandestinidade fez cair as máscaras. O clero católico, o grande apoiador, festejava os avanços até que um dia o PT chegou ao poder. De repente, frei Betto, o maior ícone católico dessa caminhada, se afasta do governo. Ele descobrira o avesso do avesso. Dirceu, agora com Lula, deixou de ser fantasma e a grande esquerda não comunista trincou de alto a baixo. De novo. Com uma diferença, desta vez: algumas sólidas lideranças católicas haviam se formado nesse meio tempo e elas conseguiram evitar o esfacelamento total: os irmãos Arns, o próprio frei Betto, Leonardo Boff, para citar os mais importantes.

Dirceu é comunista? Não, não é. Ele seria comunista se fosse o caso. Mas ele conhece bem demais as limitações da ação comunista. Dirceu é pragmático e, por isso, não é e nunca foi um estrategista. Todas as vezes em que tentou ser, ocasionou desastres. Como todo pragmático diante da estratégia, ele se equivoca. Seus objetivos são curtos.

Por esta razão não compreendeu que dinheiro deixa rastro – é como cheiro de peixe, se denuncia fácil. E como o cheiro de peixe, onde adere, fica e marca. Mesmo que não esteja no seu bolso. Basta que tenha estado no porão do barco, em grande quantidade.

Seguindo os mesmos métodos de Dirceu, Lula se livrou dele. Sem escrúpulos e justificando os meios com os fins. Principal beneficiário do mensalão, usou a velha máxima política e atirou o aliado na arena: percam-se os anéis, não os dedos. Lula já perdeu um, sabe a falta que faz.

E, agora, Dirceu é fantasma oficial: funcionário fantasma de uma empresa também fantasma, deixou de ser, definitivamente, a assombração de Lula.

Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br/2013/09/o-cardapio-do-cirio.html) quarta-feira, 4 de dezembro de 2013. Escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná.

 

A farra da antropologia oportunista

Leonardo Coutinho, Igor Paulin e Júlia de Medeiros

Critérios frouxos para a delimitação de reservas indígenas e quilombos ajudam a engordar as contas de organizações não governamentais e diminuem ainda mais o território destinado aos brasileiros que querem produzir

As dimensões continentais do Brasil costumam ser apontadas como um dos alicerces da prosperidade presente e futura do país. As vastidões férteis e inexploradas garantiriam a ampliação do agronegócio e do peso da nação no comércio mundial. Mas essas avaliações nunca levam em conta a parcela do território que não é nem será explorada, porque já foi demarcada para proteção ambiental ou de grupos específicos da população.

Áreas de preservação ecológica, reservas indígenas e supostos antigos quilombos abarcam, hoje, 77,6% da extensão do Brasil. Se a conta incluir também os assentamentos de reforma agrária, as cidades, os portos, as estradas e outras obras de infraestrutura, o total alcança 90,6% do território nacional.

Ou seja, as próximas gerações terão de se contentar em ocupar uma porção do tamanho de São Paulo e Minas Gerais. E esse naco poderá ficar ainda menor. O governo pretende criar outras 1 514 reservas e destinar mais 50 000 lotes para a reforma agrária. Juntos, eles consumirão uma área equivalente à de Pernambuco.

A maior parte será entregue a índios e comunidades de remanescentes de quilombos. Com a intenção de proteger e preservar a cultura de povos nativos e expiar os pecados da escravatura, a legislação brasileira instaurou um rito sumário no processo de delimitação dessas áreas.

Os motivos, pretensamente nobres, abriram espaço para que surgisse uma verdadeira indústria de demarcação. Pelas leis atuQais, uma comunidade depende apenas de duas coisas para ser considerada indígena ou quilombola: uma declaração de seus integrantes e um laudo antropológico. A maioria desses laudos é elaborada sem nenhum rigor científico e com claro teor ideológico de uma esquerda que ainda insiste em extinguir o capitalismo, imobilizando terras para a produção.

Alguns relatórios ressuscitaram povos extintos há mais de 300 anos. Outros encontraram etnias em estados da federação nos quais não há registro histórico de que elas tenham vivido lá. Ou acharam quilombos em regiões que só vieram a abrigar negros depois que a escravatura havia sido abolida.

Nesta reportagem, VEJA apresenta casos nos quais antropólogos, ativistas políticos e religiosos se associaram a agentes públicos para montar processos e criar reservas. Parte delas destrói perspectivas econômicas de toda uma região, como ocorreu em Peruíbe, no Litoral Sul de São Paulo. Outras levam as tintas do teatro do absurdo. Exemplo disso é o Parque Nacional do Jaú, no Amazonas, que englobou uma vila criada em 1907 e pôs seus moradores em situação de despejo.

A solução para mantê-los lá foi declarar a área um quilombo do qual não há registro histórico. Certas iniciativas são motivadas pela ideia maluca de que o território brasileiro deveria pertencer apenas aos índios, tese refutada pelo Supremo Tribunal Federal. Há, ainda, os que advogam a criação de reservas indígenas como meio de preservar o ambiente. E há também – ou principalmente – aqueles que, a pretexto de proteger este ou aquele aspecto, querem tão somente faturar. "Diante desse quadro, é preciso dar um basta imediato nos processos de demarcação", como já advertiu há quatro anos o antropólogo Mércio Pereira Gomes, ex-presidente da Funai e professor da Universidade Federal Fluminense.

Os laudos antropológicos são encomendados e pagos pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Mas muitos dos antropólogos que os elaboram são arregimentados em organizações não governamentais (ONGs) que sobrevivem do sucesso nas demarcações. A quantidade de dinheiro que elas recebem está diretamente relacionada ao número de índios ou quilombolas que alegam defender.

Para várias dessas entidades, portanto, criar uma reserva indígena ou um quilombo é uma forma de angariar recursos de outras organizações estrangeiras e mesmo do governo brasileiro. Não é por outro motivo que apenas a causa indígena já tenha arregimentado 242 ONGs. Em dez anos, a União repassou para essas entidades 700 milhões de reais. A terceira maior beneficiária foi o Conselho Indígena de Roraima (CIR). A instituição foi criada por padres católicos de Roraima com o objetivo de promover a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, um escândalo de proporções literalmente amazônicas. Instituída em 2005, ela abrange 7,5% do território do estado e significou a destruição de cidades, de lavouras e um ponto final no desenvolvimento do norte de Roraima – que, no total, passou a ter 46% de sua área constituída por reservas indígenas. Em dez anos, o CIR recebeu nada menos que 88 milhões de reais da União, mais do que a quantia repassada à delegacia da Funai de Roraima no mesmo período. Não é preciso dizer que a organização nem sequer prestou contas de como gastou esse dinheiro.

A ganância e a falta de controle propiciaram o surgimento de uma aberração científica. Antropólogos e indigenistas brasileiros inventaram o conceito de "índios ressurgidos". Eles seriam herdeiros de tribos extintas há 200 ou 300 anos. Os laudos que atestam sua legitimidade não se preocupam em certificar se esses grupos mantêm vínculos históricos ou culturais com suas pretensas raízes.

Apresentam somente reivindicações de seus integrantes e argumentos estapafúrdios para justificá-las. A leniência com que a Funai analisa tais processos permitiu que comunidades espalhadas pelo país passassem a se apresentar como tribos desaparecidas. As regiões Nordeste e Norte lideram os pedidos de reconhecimento apresentados à Funai. Em dez anos, a população que se declara indígena triplicou. Em 2000, o Ceará contava com seis povos indígenas.

Hoje, tem doze. Na Bahia, catorze populações reivindicam reservas. Na Amazônia, quarenta grupos de ribeirinhos de repente se descobriram índios. Em vários desses grupos, ninguém é capaz de apontar um ancestral indígena nem de citar costumes tribais. VEJA deparou com comunidades usando cocares comprados em lojas de artesanato. Em uma delas, há pessoas que aderiram à macumba, um culto africano, pensando que se tratasse da religião do extinto povo anacé. No Pará, um padre ensina aos ribeirinhos católicos como dançar em honra aos deuses daqueles que seriam seus antepassados.

Casos assim escandalizam até estudiosos benevolentes, que aceitam a tese dos "índios ressurgidos". "Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente de cultura indígena original", diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Declarar-se índio, no entanto, além de fácil, é uma farra. No governo do PT, basta ser reconhecido como índio para ganhar Bolsa Família e cesta básica.

O governo gasta 250% mais com a saúde de um índio – verdadeiro ou das Organizações Tabajara – do que com a de um cidadão que (ainda) não decidiu virar índio. O paradoxo é que, em certas regiões, é preciso ser visto como índio para ter acesso a benesses da civilização. As "tribos" têm direito a escolas próprias, o que pode ser considerado um luxo no interior do Norte e do Nordeste, onde milhões de crianças têm de andar quilômetros até a sala de aula mais próxima.

"Aqui, só tinha escola até a 8ª série e a duas horas de distância. Depois que a gente se tornou índio, tudo ficou diferente, mais perto", diz Magnólia da Silva, neo tupinambá baiana. Isso para não falar da segurança fornecida pela Polícia Federal, que protege as terras de invasões e conflitos agrários. "Essas vantagens fizeram as pessoas assumir artificialmente uma condição étnica, a fim de obter serviços que deveriam ser universais", constata o sociólogo Demétrio Magnoli.

A indústria da demarcação enxergou nas pequenas comunidades negras mais uma maneira de sair do vermelho e ficar no azul. Para se ter uma ideia, em 1995, na localidade de Oriximiná, no Pará, o governo federal reconheceu oficialmente a existência de uma comunidade remanescente de um quilombo – e, assim, concedeu um pedaço de terra aos supostos herdeiros dos supostos escravos que supostamente viviam ali. Desde então, foram instituídas outras 171 áreas semelhantes em diversas regiões.

Em boa parte delas, os critérios usados foram tão arbitrários quanto os que permitiram a explosão de reservas indígenas. Também no caso dos remanescentes de quilombolas, a principal prova exigida para a demarcação é a autodeclaração. Como era de esperar, passou a ser mais negócio se dizer negro do que mulato. "Desde que o governo começou a financiar esse tipo de segregação racial, os mestiços que moram perto de quilombos passaram a se declarar negros para não perder dinheiro", diz a presidente do Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro, Helderli Alves. Índio que não é índio, negro que não é negro, reservas que abrangem quase 80% do território nacional e podem alcançar uma área ainda maior: o Brasil é mesmo um país único. Para espertinhos e espertalhões.

Fonte: http://a-origem-do-homem.blogspot.com.br/

 
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