Contos de Natal geralmente são melosos e chorumelentos. Há sempre alguém sofredor de grandes olhos arregalados e uma alma com acesso de remorso ou de bondade. Este, posso lhes garantir, não é assim. Até porque a bondade raramente passava pelo coração do senhor Arq, carinhoso e oportuno apelido dado pelo pessoal do engenho a Archybald Souto, para ficar em apenas dois de seus nove nomes, visto que eram poucos os capazes de pronunciar o nome inteiro. É, o conto é ambientado naquela zona de transição entre a libertação dos escravos e a chegada do grosso dos imigrantes, quando a mão de obra na lavoura se tornou rara. Não que isso alterasse muito as coisas nestas fazendas amazônicas, visto que escravos havia poucos: s selva, velha conhecida dos ioruba e dos banto, que com ela conviviam na distante África, propiciava a fuga e os quilombos, desestimulando as compras pela dificuldade de manter a propriedade. Mas, mesmo assim, foi um golpe para os pais de Arq, acostumados a várias e diversas mordomias proporcionadas pelos escravos domésticos. E, é claro, para Arq também: da noite para o dia, os moleques em quem mandava e desmandava, batia e xingava, se tornaram inalcançáveis. Aqueles pretinhos agora fugiam. E alguns o desafiavam, mesmo, tomando a liberdade com as mãos, os pés, a cabeça e o sangue guerreiro que gritava neles repelindo os insultos.

Arq se preparava para o Natal. A fazenda não tinha capelania, de forma que a vinda do padre para celebrar a missa do Natal era um acontecimento. Mas tinha seu grupo de beatas, o terço obrigatório às seis da tarde, o catecismo enfiado na cabeça através das mãos, empurrado em bolos de palmatória. Arq recebia suas aulas e seus bolos em separado dos negrinhos; as palmadas, entretanto, eram iguais para ele como para os outros. Assim, pelas frestas da porta e das janelas da salinha onde ardia permanentemente uma lâmpada de óleo diante do crucifixo, a meninada negra se vingava espiando Arq gritar de dor a cada resposta errada. A beata encarregada acreditava que aquela punição complementar, proporcionada pela plateia clandestina, ajudaria o seu pupilo a aprender mais depressa, embora o efeito fosse contrário: Arq, com raiva, tropeçava no Pai Nosso em todas as aulas.

Ora, os negrinhos agora eram completamente livres e a liberdade lhes permitia grandes risadas a cada grito de Arq. Além de que era proibido chorar: o menino branco ficava vermelho com o esforço de engolir soluços, lágrimas e raiva, o que divertia enormemente a criançada. Na saída dessas aulas Arq não encontrava ninguém. A garotada desaparecia, porque afinal de contas se tratava do filho do patrão, um filho d’algo cuja palavra sempre valeria mais do que a deles. Arq se desabafava no que encontrasse pela frente, inanimado ou não. E de tal forma que até as galinhas, que todo mundo sabe que não têm um pingo de cérebro, fugiam assim que o percebiam.

Pois Arq se preparava para o Natal: precisava decorar o “Venite Adoremus” que a beata de ocasião encasquetara que ele deveria cantar na noite santa, acompanhado por ela própria ao piano, que martelava com gosto enquanto o pequeno se esganiçava:

Adeste fideles, laeti triumphantes,
Venite, venite in Bethlehem!
Natum videte, Regem angelorum
Venite adoremus, Venite adoremus,
Venite adoremos Dominum.
Aeterni parentis splendorem aeternum,
Velatum sub carne videbimus;
Deum infantem pannis involutem.
Venite adoremus, Venite adoremus,
Venite adoremos Dominum.

Invariavelmente Arq tropeçava do “velatum sub carne videbimus”, da mesma maneira como todo mundo tropeça no hino nacional, entre “Brasil de um sonho intenso” e “Brasil de amor eterno”. Em vez de “velatum” cantava “venite” e um forte acorde do piano era seguido pela voz aguda da beata: “ve-la-tum” e pelos risinhos daqui e dali.

De tanto prestar atenção no Arq a meninada negra aprendeu a cantar do seu jeito:

“Déste, fidéste, léti o elefante,
venite, venite in Be-e-tlém.
Nato vidéte régi ano loro,
venite adoremo, venite adoremo,
venite adoremo do-o-minó”.

Às proximidades do Natal a beata desistiu da segunda estrofe do hino. Arq conseguiu então ensaiar corretamente, e ensaiou tanto que a música ficou na sua cabeça, repenicando. E repenicou até o momento em que ele se postou do lado do piano, e soaram os primeiros acordes. Aí, deu branco.

A beata olhou para ele e iniciou de novo. Arq, nada. Ela tocou pela terceira vez e então a meninada correu em socorro:

“Déste, fidéstes...”

Arq tomou prumo e tentou controlar a situação, cantando a plenos pulmões, tentando sobrepor sua voz ao do coro improvisado. Não deu. As vozes brancas gritavam “venite, venite” e, quando soou o último acorde, o padre estava emocionado.

Tanto que nem percebeu a cara de escândalo da beata, o rosto horrorizado da dona da casa, a raiva contida nos olhos do pai e exposta na vermelhidão do rosto de Arq. Levantou-se da cadeira e elogiou

“a grandeza de alma dos que organizaram um tão belo coral, mostrando o verdadeiro espírito de Natal”.

Depois os brancos foram para uma mesa, do lado de dentro, os negros para outra, do lado de fora, Arq foi cumprimentado e a criançada negra se atirou sobre um raro café da manhã, temperado por uma doce desforra.

Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br), 22/12/2013. Escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná.