Ontem foi o aniversário de Belém.

Muito menina, vinha de Cametá no “3 de Outubro”, gaiola fumacento e lento. Sabe “O amor nos tempos do cólera”, de Garcia Márquez? Era assim mesmo. Paradas para a lenha, para embarque em Igarapé Miri e Abaetetuba, a travessia na baía com todas as mulheres de terço na mão.

Das chegadas, o que permaneceu foi um aroma: couro e gasolina, o cheiro dos chamados carros de praça, dirigidos por um chauffeur que cobrava conforme a cara do freguês. Belém me deslumbrava.

Na vinda definitiva, Batista Campos, no início dos anos 50. Era subúrbio. Um dos critérios para a escolha da casa foi estar perto do final da linha de ônibus, de forma que sempre se poderia viajar sentado. Havia uma vacaria defronte de casa, e pela manhã o leiteiro saía na carrocinha, a tocar o sino, com seus litros arrolhados com cortiça e suas vasilhas de alumínio. Despertava-se o Ano Novo batendo com pedaços de ferro nos postes também de ferro.

Não pensem que tenho saudade. A água pingava das torneiras, o que obrigava a turnos de bomba manual para encher depósitos ou, então, baldes sem parar, o dia inteiro. As lâmpadas eram como brasas: havia necessidade de aladins, candeeiros e velas. Os fogões eram a querosene, como as caríssimas e raras geladeiras. Períodos havia em que a família se revezava nas filas: para a carne, para a batata, para o pão, para qualquer produto que chegasse de fora. A carne era vendida com osso e peles, e, diariamente, havia brigas nos açougues. E os ônibus eram de madeira.

Hoje, meio século depois, vivo uma outra cidade que, no entanto, é a mesma. Nem melhor, nem pior. A escala de problemas é outra, a de vantagens, também. O bate-boca do açougue se organiza agora em filas no Procon. Há semelhantes movimentos de caridade, festas juninas, Círio. O abastecimento de água e de energia não foram completamente resolvidos e as valas continuam a céu aberto. Há muito mais gente, há muito mais barulho mas também há muito mais alternativas para a sobrevivência – ou não chegariam aqui tantos imigrantes.

Da mesma maneira que na década de 50, continuamos a reboque do Brasil, seguindo os modismos e as ideias malucas que chegam de Brasília. Belém se despersonaliza, pouco a pouco se torna igual a todas as outras.

E é esta cidade que vejo renascer agora: um lugar onde o viajante chega e se sente à vontade. Há sanduíches, supermercados e shoppings, no mesmo formato dos que existem em Hong-Kong ou Florianópolis. Há jeans e camisetas de marca conhecida. Há comida nativa e comida internacional, mais esta que aquela.

Duvidam? Pois a nova geração de nascidos aqui sabe o que é um morango, mas são poucos os que já viram um jenipapo... Menos ainda os que sabem usar um remo. Eles conhecem igarapés por fotografias e se você falar “Axi!” eles corrigirão: “É axé que se diz!”

 

Não pensem que lamento: apenas constato. Será muito bom se as pessoas que viverão aqui em mais 50 anos puderem viver melhor do que vivemos agora. Numa das cidades do mundo, uma cidade qualquer, Belém do Pará.

Ana Monteiro Diniz (http://amdiniz.blogspot.com.br), 13/01/2014.

Escritora e jornalista, nasceu em Oriximiná.