Apêndices de estilo Konduri com decoração constituída por ponteado ...

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A historiografia já demonstrou que o contato das sociedades indígenas com os europeus durante o século XVI e XVII desencadeou mudanças extremas nos modos de vida dos povos amazônicos, principalmente os de áreas de várzea, próximos ao Rio Amazonas e seus principais afluentes. Para entendermos como esses povos viviam na época do contato com os europeus é necessário utilizarmos os relatos de viajantes e missionários que percorreram a região amazônica nos primeiros anos da conquista como Carvajal (1541), Acuña (1639), Heriarte (1662) e Bettendorff (1668).

A pesquisadora Laura Souza (2003, p. 29) destaca que a época das grandes navegações e da conquista1 da América é caracterizada por uma religiosidade exacerbada, um momento histórico das utópicas buscas por terras ricas em ouro e especiarias, viagens repletas de monstros e aventuras.

O “homem selvagem” também não era tema novo, tendo suas raízes no mundo antigo, como sendo uma pessoa que não compartilhava da cultura grego-romana, não falava grego ou latim e não cultuava as mesmas divindades (Ibidem, p. 54), no contexto do século XVI até o XIX estes “homens selvagens” estariam num estágio de infância intelectual em relação ao homem europeu e seriam pagãos, seriam o inverso do modelo de cavalheiro do repertório cultural inglês, onde portavam essa características os homens letrados e normalmente de sangue nobre. Este “homem selvagem” antigo e medieval emprestou muito de suas características aos homens do Novo Mundo, os ameríndios. O mítico permeava as viagens do século XVI e XVII (UGARTE, 2003), pois o Novo Mundo estava às margens do Velho Mundo, um mundo “civilizado” e cristão.

Portanto os ameríndios, devido a sua nudez, guerras e ritos antropofágicos2, vistos como canibalismo, foram considerados selvagens ou bárbaros, termo este oriundo

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1 Segundo CUNHA (1992, p. 12-13) o termo contato não passa de um “eufemismo envergonhado”, por isso deve-se utilizar o termo conquista no sentido de que houve sim imposição de poder através da violência e política, houve escravidão e extermínio de muitos grupos indígenas. Porém isto não quer dizer que os indígenas não foram agentes de sua história e o ainda são, e nem que devam ser vistos apenas na posição de resistência; não atribuindo a ideia de que foram responsáveis pelo seu destino de sofrimento, longe disto.

2 Ritos ou cerimônias onde um prisioneiro de guerra era executado e comido para fins simbólicos. Muito comum em grupos indígenas como os Tupinambás.

da antiguidade clássica que classificava assim todo aquele que não conhecia o poder centralizado, não falava grego e não habitava a polis (cidade-estado grega), estas seriam características do “homem civilizado” (FREITAS, 2011). O termo bárbaro, também era muito empregado pelos missionários, pois estes viam além das guerras e nudez dos indígenas, a adoração de ídolos ou a chamada muitas vezes de idolatria (VAINFAS, 1990). Isto os tornava cultuadores do diabo, mas abordaremos com detalhes esse aspecto mais a frente.

O mito do El Dorado é um dos mais presentes nos relatos e crônicas de viajantes do século XVI e XVII. A ideia dos europeus em encontrar nas margens do mundo, ou seja, nos locais longínquos, cidades repletas de ouro, de prata, pedras preciosas e riqueza proveniente das especiarias naturais que brotariam da terra em abundância, era muito motivado por empreendedores e reis/rainhas europeus, pois certos artefatos em ouro, prata, bronze e jade, produzidos e utilizados pelos ameríndios de áreas andinas excitou o imaginário do Velho Mundo.

Os vários povos da América Central e do Sul, no Peru e Colômbia, possuíam enfeites corporais e outros objetos confeccionados com estes materiais3, mas nada comparado a uma cidade feita de ouro e outros metais preciosos. As regiões mais próximas do vale amazônico incitavam na mente dos viajantes a possibilidade do mito ser real, e que se localizava mais ao interior das florestas, o que incentivou, além da procura por mão de obra escrava e de exploração de novos territórios, buscas pelo El Dorado (UGARTE, 2003).

A historiografia necessitou de muitos cuidados ao analisar os relatos dos viajantes e diários de religiosos missionários na Amazônia, pois expressavam um discurso etnocêntrico baseado em muitos mitos e conceitos greco-romanos e medievais como o caso das guerreiras amazonas do frei Carvajal, com isto, parece que houve a rejeição de vários dados apresentados por esses relatos como, grandes populações indígenas habitando cidades no vale amazônico.

Isto foi o que a historiografia fez durante muitos anos, porém com as contínuas pesquisas da arqueologia esta noção sobre o passado da Amazônia foi extrapolada para além das “fontes escritas clássicas”, que são os ditos documentos oficiais (cartas da coroa, relatórios de carregamento de embarcações, códigos legislativos, relatórios da3 Haviam artefatos indígenas feitos de ouro, jade, bronze e prata na região da Colômbia e Peru, hoje, muitos destes expostos no Museu do Ouro em Bogotá. Talvez por isso a busca por mais ouro ao leste dos Andes, em direção das florestas, como um reino escondido. Ver mais em SHIMADA & GRIFFIN. Os objetos preciosos do Sicán médio. Scientific American Brasil. Edição especial. Nº 10, p. 36-45. Igreja e missões, relatos de viajantes e outros).

Foi necessário um “renovar do olhar” para com esses documentos, pois avançamos no que diz respeito de acesso a fontes e o que muito foi dito como simplesmente mítico e fantasioso como, populações gigantescas vivendo em cidades, estradas que interligavam as aldeias e uma riqueza de cultura material, com as escavações arqueológicas percebeu-se não ser tão fantasioso assim (PORRO, 1996). Desta forma, partindo das fontes arqueológicas, etnográficas (de povos amazônicos atuais) e históricas (relatos de viajantes e missionários) foi possível elaborar novas interpretações sobre os antigos povos da Amazônia, mesmo para o período anterior a chegada dos europeus.

OS DOCUMENTOS EUROPEUS

Comecemos pelo relato do frei Gaspar de Carvajal em busca da “Terra das Canelas” entre 1541-42. O frei dominicano saiu de Quito, na expedição de Gonzalo Pizarro, com muitos soldados a cavalo, lhamas e indígenas; porém o grande grupo se dividiu no rio Coca, com o intuito de conseguirem recursos alimentícios, pois passavam fome na floresta. Um grupo maior saiu por terra e o outro, liderado por Francisco de Orellana, por água, em um bergantiu (embarcação) e algumas canoas com 57 homens, entre eles, soldados europeus e indígenas, descendo o rio Negro e Amazonas até alcançar o Atlântico. O frei Carvajal se tornou o relator da expedição por motivos de justificar o desencontro entre os expedicionários, pois estes haviam se comprometido com Pizarro de voltar com alimentos ao ponto em que se separaram, coisa que não foi possível. No decorrer da viajem o frei fez diversas observações sobre os povos que encontraram. A descrição temporal de Carvajal é marcada por datas relacionadas aos dias religiosos católicos, além de citar algumas coisas encontradas nas aldeias  indígenas, normalmente fez referência a objetos ou até de animais só existentes na Europa ou na já conhecida África.

O trecho do relato que nos diz respeito no momento é o das “terras dos Omáguas”, Carvajal faz uma descrição do que hoje conhecemos como as vestimentas e/ou máscaras cerimoniais, utilizadas por diversos povos indígenas da Amazônia até os dias de hoje, além de existirem na mesma “casa”, uma grande quantidade de vasilhas cerâmicas que impressionam os europeus por sua beleza, cerâmicas desse tipo já foram encontradas em diversos sítios arqueológicos hodiernamente, porém o mais interessante nesse relato é a ideia de que tais vasilhas estavam depositadas dentro de uma “casa”. Carvajal afirmou que Orellana resolveu invadir um assentamento a procura de alimentos.

En este pueblo estaba una casa de placer, dentro de la cual había mucha loza de diversas hechuras, así de tinajas como cántaros muy grandes de más de 25 arrobas, y otras vasijas pequeñas como platos, escudillas y candeleros, desta loza de la mejor que se ha visto en el mundo, porque la de Málaga no se iguala con ella, porque es toda vidriada y esmaltada de todas colores y tan vivas que espantan. Y demás desto, los dibujos y pinturas que en ellas hacen son tan compasados que, normalmente, labran y dibujan todo como lo romano. Y allí nos dijeron los indios que todo lo que en esta casa había de barro, lo había en la tierra adentro de oro y de plata, y que ellos nos llevarían allá, que era cerca. (CARVAJAL, 2011, p.40)

Porém a motivação pela busca de ouro em localidades “próximas” nos remete a antiga busca pelo El Dorado. É interessante também dar destaque ao que o frei chamou de “caminhos”, espécie de estradas que interligavam os assentamentos e aldeias indígenas, algo que já vem sendo estudada pela arqueologia (SCHMIDT, 2016, p.130- 152), Carvajal explicou:

Deste pueblo salían muchos caminosy muy reales por la tierra adentro, y El capitán quiso saber adónde iban y por aquesto, tomó consigo a Cristóbal Maldonado y al alférez y a otros compañeros, y comenzó a andar por ellos; y no habían andado media legua, cuando los caminos eran más reales y mayores. Y visto el capitán esto, acordó de se volver porque vido que no era cordura pasar adelante. (CARVAJAL, 2011, p. 40 e 41).

Mais a frente no relato, os exploradores encontraram outros grupos nativos e repete-se a informação sobre casas que guardavam vestimentas cerimoniais que eram utilizadas em danças e para ofertarem bebidas a “senhora das amazonas”, que possuía uma espécie de recipiente ao meio da praça em sua homenagem.

Neste local, Carvajal entendeu que estes indígenas seriam tributários das “amazonas” por possuírem insígnias da “senhora das amazonas”, chamada de “Coñori” (CARVAJAL, 2011, p.57), pois existiam objetos nas casas relacionados a estas mulheres guerreiras. Parece ser pura fantasia, que há apenas referência às guerreiras amazonas dos mitos gregos, porém se levarmos em conta a quantidade de artefatos arqueológicos com formas femininas muito evidentes e o não domínio da língua nativa se torna mais fácil de notar a relação ou confusão destes europeus em relacionar os povos nativos as características ou arquétipos da sua própria bagagem mitológica greco- romana. É muito comum, por exemplo, a procedência de imagens femininas na cerâmica de Santarém e Marajó (PROUS, 1992; SCHAAN, 1996) tornando totalmente possível que este povo também possuísse imagens e estatuetas de mulheres dentro de suas casas cerimoniais ou domésticas. Também é possível fazer relação ao nome do grupo indígena “Conduri” com o nome da dita “senhora Coñori”, pois pode bem ser “Cunuri” ou “Conduri”, como outros viajantes se referiam ao nome do rio que hoje conhecemos por Nhamundá, o mesmo nome era dado aos grupos indígenas que viviam na boca deste rio e mais adentro em terra firme.

Desta forma, percebemos o início da denominação do povo indígena da região do Rio Nhamundá e Trombetas, os “Conduris”, que em primeiro momento são representados como sendo subordinados ou aliados às “guerreiras amazonas”. Além do que, no resto do relato Carvajal destaca as riquezas materiais a forma de reproduzir a lenda do El Dorado.

Partimos agora para o relato do jesuíta Christóbal de Acuña. Este documento foi escrito porque em 1637, Pedro Teixeira, juntamente com 70 portugueses e 1.100 indígenas, distribuídos em 47 canoas, saíram de Gurupá até Quito, mapeando a área percorrida para a divisão das terras de Portugal e Espanha. Na viajem de volta, deveriam reivindicar terras em nome da Coroa Portuguesa. Os espanhóis com receio de perderem território para os portugueses, mandaram dois jesuítas com a expedição de regresso, Acuña e Andrés Artieda (MARTINS, 2007).

Em 1639 Acuña apresenta-nos o relato chamado de O novo descobrimento do rio das Amazonas, onde descreveu, em linhas gerais, as nações indígenas e seus costumes, tudo com uma linguajem eurocêntrica e moralista por ser ligado a igreja. Afirmou que os nativos eram muito inclinados às bebedeiras e faziam vinho de várias frutas; também explicou sobre o consumo de peixes e tartarugas em grande escala. Além disso, cita um grupo indígena que vivia no “Rio Cunuris” ou “Conduris”, que seria também o nome do grupo indígena em sua foz (PORRO, 1996), onde hoje é o Rio Nhamundá. Rio acima, estavam os “Apantos”, que falavam a língua geral4, os “Taguaus”, e depois os “Cacarás” ou “Guayearas” em um suposto contato direto com as “amazonas”.

Acompanhando a viajem de Pedro Teixeira estava também Maurício de Heriarte, que escreveria somente em 1662 sua crônica. Heriarte também classificou, assim como Acuña, os indígenas como “selvagens”, “canibais” e “beberrões”. Porém o que nos interessa aqui é a informação de que no rio Trombetas estavam os Conduris:

(...) esta o rio das trombetas, muy povoado de índios de diferentes nações: como Sam, Conduris, Bubuis, Aroazes [sic], Tabaus, Cariatos, e outros

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4 Nheengatu, uma língua proveniente do Tupi, criada por padres para se comunicaram com os indígenas. Neste caso pode ser entendido como indígenas que aprenderam a língua geral realmente ou que teriam a língua proveniente do tronco Tupi, algo que poderia ser entendido pelos portugueses e espanhóis.

muitos; e todos tem os próprios Idolos e ceremonias e governo que tem os tapajós. [Todos elles Sam de pouca vergonha. Vivem nus, assim os homens como as mulheres, sem cobrirem as partes vergonhozas]. As terras deste rio das trombetas (que os Portuguezes lhe deram este nome pellas muitas trombetas de que seu moradores uzam com que fazem suas festas e borracheiras, a que Sam mais inclinados) Sam mais fartas de mandioca que  as dos tapajós, e he de muita caça. [Aproveitam se todos do grande rio das Amazonas]. Tem muita pescaria pella muita abundancia que tem de peixe de todo gênero, e muito peixe boy e tortugas. [As armas que uzam, Sam arcos e frechas]. [No destrito deste rio a cantidade de lagos grandíssimo, a onde se cria grande cantidade de arros sem se semear. He bom, mais algu tanto vermelho por dentro, de que os índios se aproveitam. Fazem delle vinho, e contratam com outras nações. Tem estes índios e os Tapajos finíssimo barro, de que fazem muita e boa louça de toda a sorte, que entre os Portuguezes he de estima, e a levam a outras Provincias por contrato.

Da Provincia dos Tapajos pello rio das Amazonas assima athe o rio dos Tupinambaranas avra 50 legoas de caminho. [Nam há mais de quatro povoações pella beira do rio de Orurucuzes e Condurizes: suposto que pella terra dentro há cantidade de nações de bárbaros que comunicam com estas aldeãs, que estam beira mar, para alcançarem da nossa ferramenta. (PAPAVERO et al. O Novo Éden, 2002, p. 256).

A descrição acima confere o nome “Condurizes” a um grupo indígena do Trombetas, o uso de estatuetas semelhantes aos dos Tapajós, chamadas de ídolos na concepção cristã, pois caracteriza a prática da idolaria do diabo europeu. Além disso, observa a produção de belas cerâmicas, a relação de comércio entre os povos da região, além de nos dar uma particularidade da produção de bebida fermentada proveniente de arroz selvagem presente nas áreas dos lagos, há informação sobre a utilização de trombetas em cerimônias, produção de mandioca e a prática da pescaria em abundancia, principalmente de tartarugas. O relato de Heriatre aponta à existência de aldeias “Condurizes” ao lado Sul do Rio Amazonas, já na província dos “Tapajós”, e a utilização das terras às margens do rio e mais ao interior, ocorrendo uma possível relação interaldeias. A presença de cerâmica Konduri na região do Rio Tapajós, próximo a Santarém já vem sendo estudada por alguns arqueólogos (MARTINS, 2010; PANACHUK, 2016).

No seu relato, Heriarte informa que os índios do Tapajós, “Teem ídolos pintados em que adoram, e a quem pagam dizimo das sementeiras, que sam de grandes milharadas”, e também descreve o que se parece com uma prática festiva cerimonial:

Estando maduras as sementeiras, dá cada um a décima, e tudo junto o mettem na casa que teem os ídolos, dizendo que aquilo he Potaba de Aura, que, na sua lingoa, he o nome do diabo; e d’este milho fazem todas as semanas cantidade de vinho, e à 5º feira de noute o levam em grandes vazilhas a uma eira, que detraz da sua aldeia tem muito limpa e aceada, na qual se juntam todas d’aquella nação, e com trombetas e atabales tristes e funestos, e começam a tocar por espaço de uma hora, athé que vem um grandíssimo terremoto, que parece vem derrubando as arvores e os montes, e com elle vem o Diabo e se mette, em um corpo que os Indios tem feito paraa elle, e logo todos com a vinda do Diabo começam a bailar e cantar na sua lingoa, e a beber o vinho athé que se acabe, e com isto os traz o Demonio enganados. (HERIARTE, 1874, p.36).

Portanto, essas fontes nos dizem que existiam casas cerimoniais que possuíam em seu interior estatuetas para fins religiosos, no caso dos “Tapajós”, essas casas se encontravam um pouco afastadas da aldeia, e que em determinada época havia cerimônias de oferta de milho para as divindades que compunham a cosmologia desse grupo, e que eram verdadeiras festividades com muito consumo de bebidas fermentadas, dança e música, além de que essas bebidas eram transportadas em grandes vasilhas, acredito que eram de barro, como as que já foram encontradas em escavações na região hodiernamente. Claro que tudo isto, na visão dos europeus era visto como culto ao diabo, como se pode ver, em outros trechos do relato de Heriarte e do Padre Daniel, certa retaliação dos missionários a estas práticas, com a destruição de alguns corpos mumificados preservados no interior de tais casas cerimoniais, e até com a destruição dos famosos muiraquitãs, que eram pedras, em maioria esverdeadas, com formas de rã e sapo, utilizadas como “amuletos” (Ibidem, p. 37-38)

Entre os anos de 1660 e 1698, com algumas interrupções, o jesuíta João Felipe Bettendorff atuou nas províncias do Grão-Pará e Marahão. Em suas crônicas detalha sobre os indígenas com quem mais entrou em contato, os Tapajós; porém aborda os “Conduris” brevemente; informa que em 1658 o padre Manoel de Souza, juntamente com o padre Manoel Pires foram enviados como missionários para catequizar, na região setentrional, os “Aruaquis”, “Tupinambaranas” e os “Condurizes”; até que o padre Souza veio a falecer:

(...) em uma aldêa dos barbaros Condurizes (...) Foi enterrado em uma egreja que os indios mesmo lá fizeram, em reverencia de seu corpo (...) morreu e se enterrou em os Condurizes, donde depois de muitos annos trouxe os seus ossos Simão dos Santos, sendo subprior da casa de Santo Alexandre do Grãopará, onde se enterraram na ermidazinha velha de S. Francisco Xavier (...). (GUAPINDAIA, apud BETTENDORFF, 2008, p.15).

Os padres, Salvador do Valle e Paulo Luiz, ficaram no aldeamento dos Pauxis, na zona onde depois se levantou a Vila de Óbidos (BETTENDORFF, 1910). Entre 1669 e 1674, Bettendorff foi superior da Missão da Companhia de Jesus do Maranhão e Grão Pará; e visitou a aldeia dos “Condurizes”:

(...) fui-me aos Condurizes, da banda de além, pois pertenciam á visita do Padre Antonio da Fonseca. Muito me agradou a entrada para aquelle rio, e o rio não é só por grande e claro, mas por muito alegre, por suas bellas praias de arêa e lindos outeiros, que de uma e outra banda o acompanham. Queria ir velo até as cabeceiras, mas como achei ausente o principal, ido com a tropa

do cabo João de Seixas, e a aldêa desamparada toda, sem egreja, por andarem os indios continuamente divertidos, fiquei obrigado a dizer missa em praia a alguns brancos, que lá achei, os quaes me fizeram presentes de uns passaros de muita variedade, de bellisimas cores, chamados aráras, que se acham naquella terra dos Condurizes, mais engraçados que em outras terras, e por isso os levei commigo, mui contente, para o Grãopará, donde mandei sete delles ao illustrissimo senhor Nicolaini, o qual os tinha pedido com muito encarecimento, estando eu com elle em Lisboa, e me escreveu de Pariz que  os não recebera por terem feito todos naufragio pelo mar, porém ficava muito agradecido, esperando que outros que viessem não teriam a mesma desgraça. Continuei minha viagem pelo bello rio das Trombetas, e percorrendo as aldêas principais pelo rio das Amazonas abaixo e pelas ilhas dos Ingaybas, dei commigo em Parijó, aldêa principal da Capitania de Cametá. (Ibidem, p. 16).

Nota-se que surge aos poucos o aldeamento dos “Conduris” da região, onde foram catequizados, observa-se que o principal não estava presente, tendo se ausentado na companhia do cabo Seixas, pois buscavam mais indígenas para levarem ao aldeamento que surgiu. Em 1693 os capuchos da piedade se tornam responsáveis pelas missões do Tombetas e Jamundazes (Rio Nhamundá), nome deste último dado em homenagem a um cacique daquela região. Os assentamentos religiosos foram efetivados onde se ergueu o forte dos Pauxis (Óbidos) fundado em 1697 e a missão dos Jamundazes em Faro ou chamada de missão São João Batista.

Estes aldeamentos consistiam em aglomerar indígenas de diferentes etnias a fim de catequiza-los, o que desarticulou tradições sociais, hábitos e crenças desses grupos. Tornavam-se ainda trabalhadores como carpinteiros, oleiros, agricultores, soldados entre outras atividades, tudo como parte do discurso civilizatório cristão (SOUZA JUNIOR, 1993) e para o desenvolvimento dos vilarejos e fortes que cresciam na região amazônica como um todo. A cidade de Óbidos se destacou pela posição estratégica, o ponto mais estreito do Rio Amazonas e possui um terreno elevado, sendo a famosa “sentinela” da Amazônia. A respeito do forte, sabe-se que foi construído para proteção do território e fiscalização de embarcações holandesas e francesas que costumavam transitar na região, passando também a servir de órgão fiscalizador de entradas e saídas comerciais como das drogas do sertão (canela, cravo, ervas medicinais, tabaco, etc).

Segundo Arthur Cezar Ferreira Reis, em seu livro História de Óbidos (1979); em 1693 os padres Capuchos da Piedade foram à região do Rio Trombetas a pedido de Manuel Guedes Aranha, Capitão-Mor de Gurupá. Montaram aldeamento ao estilo das outras ordens evangelizadoras; segue a informação de Reis:

Em 1697, dois frades da Piedade, cujos nomes não constam da documentação de que nos temos valido, organizaram o aldeamento dos Pauxis e de outros grupos que foram sendo buscados para aumentar o povoado, nascente a sombra do forte, a meia hora de distância do qual foi instalado. (REIS, 1979, p.26).

Fazendo referência a Ferreira Pena, Arthur Reis nos da informação que “Só em 1727, com a ajuda do comandante do forte de Pauxis, converteram 15 tribos no Trombetas” (Ibidem, 1979, p. 26). Também nos coloca que na correspondência oficial, “Pauxis-aldeia” era chamada de “aldeinha”, para diferenciar o aldeamento dos missionários dos assentamentos indígenas comandados pelos militares que os  utilizavam como força de trabalho nas proximidades dos presídios.

Segundo frei Venâncio Willeke (1978, p.149) em 1720, o forte e seu aldeamento (aldeinha) era povoado pelos índios “Pauxis, Arapiu, Coriati e Candori”, ou seja, ainda existiam quatro grupos indígenas distintos no aldeamento, possivelmente entre eles os “Conduris”, chamados nessa fonte de “Candori”. João Barbosa de Faria explica a concentração de indígenas “Uaboí” no “baixo-Jamundá” como tendo sido provocada pelos “Pauxis”, que em sua missão resistiram aos abusos cometidos pelos militares e missionários, refugiaram-se entre os “Uaboí”, tendo originado a vila de Faro, respeitada no comércio por sua produção de olaria.

O arqueólogo Peter Hilbert (1955) observou que Curt Nimuendajú, apresenta o nome “Pauxis” como sendo de origem caribe, que significaria mutum (um pássaro do tamanho de um pavão, comum na região) e que segundo Bettendorff, seriam indígenas que falavam a língua geral e haviam sido retirados do Rio Xingu e transportados ao forte no rio Trombetas. Diz-nos também que havia duas aldeias próximas ao forte que  se fundiram. O arqueólogo também destaca uma informação do Padre Fritz sobre o grupo dos “Cunurizes”, que os localizou em seu mapa exatamente onde seis anos depois se construiu o forte dos Pauxis (HILBERT, 1955).

As políticas de desenvolvimento dos aldeamentos em vilas no século XVIII, implantadas através da força pelo Governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado, retirou o poder das instituições religiosas e elegeram diretores responsáveis pelos indígenas, o que causou grande conflito por estes diretores e militares abusarem dos indígenas como força de trabalho (não que os missionários também não o fizessem), desta forma os aldeamentos foram desfeitos por conflitos e em 1754 muitos indivíduos da Vila dos Pauxis refugiaram-se entre os indígenas do Rio Negro ou se deslocaram para outras áreas formando mocambos (REIS, 1979).

Antônio Porro (2008) publicou um artigo que apresenta uma relação (documento) do frei Francisco de São Manços que em 1725 foi responsável pelo aldeamento dos “Jamundás”, onde seria mais tarde a vila de Faro, com 162 indígenas da nação “Bahui” (Uaboí) e 70 da nação “Nhamundá” do rio homônimo. Em 1728 relata empreitadas em busca de indígenas incógnitos nas regiões do Rio Trombetas e Mapuera, onde este frei foi instigado por indígenas “Uaboí” sobre a existência de cerca de 50 nações, das cachoeiras do Trombetas em direção ao Rio Mapuera.

O mais interessante está em alguns detalhes sobre a estrutura política desses grupos, por exemplo, Antônio Porro destaca que o líder dos Parukotó Teumigé, ao ser convocado por São Manços a ir para o aldeamento do Nhamundá com os seus principais, mandou dizer que os de membros de doze aldeias mais remotas não haviam chegado, e suas decisões eram compartilhadas e realizadas segundo a vontade de seus “vassalos”. Retirando a linguagem medieval do frei, somada ao que já se construiu na etnografia e antropologia indígena e indigenista, podemos perceber que a visão eurocêntrica acredita que a liderança indígena é uma chefia hierárquica dominadora, por isso a ideia de “vassalos”, porém sabe-se que as lideranças indígenas são formadas pelo merecimento e aceitação do grupo, sendo aquele indivíduo representante dos interesses da coletividade. O autor ressalta que São Manços levou 40 indígenas Parukotó, sendo dois, líderes de “subgrupos” ou grupos familiares, além de que, o frei andou muito mais pelo Rio Mapuera do que pelo Rio Trombetas.

Estes detalhes foram destacados como forma de demonstrar a quantidade e diversidade de grupos indígenas na região trabalhada e em suas proximidades ao longo do tempo, além de explicitar as missões com o intuito de absorver mais grupos indígenas aos aldeamentos, demonstrando também o esfacelamento dos grupos nativos ao longo do tempo, além da mistura de muitos dos que sobreviveram nos aldeamentos que deram origem aos municípios da região. A discussão sobre as estruturas políticas e de liderança dos diversos grupos indígenas no passado ainda precisam ser mais bem elaboradas e mais dados são necessários. A arqueologia vem construindo teorias que expliquem as estruturas sociopolíticas das várias sociedades amazônicas que abordaremos melhor no próximo tópico.

Fonte: Luis Paulo dos Santos de Castro. Pratos e Panelas Konduri: Um Banquete Xamânico na Amazônia Pré-Colonial. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. Centro de Ciências Sociais e Educação. Universidade do Estado do Pará – UEPA. Belém 2018.

Última atualização ( Dom, 03 de Maio de 2020 12:25 )